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A perda da identidade na velhice

“Eu me sinto inútil e é horrível se sentir assim”. Essa, dentre tantas falas de pacientes idosos, levaram-me a questionar como trabalhar com esses sujeitos que apresentam um discurso construído em torno da noção de um corpo em declínio, que tem inevitavelmente efeitos sobre o sujeito, e desse sujeito que se encontra às voltas com a sustentação de seu desejo, o que por muitas vezes sucumbe no confronto com o corpo prometido a morte.

Penso, então, que onde o sujeito não pode se reconhecer sujeito através do desejo, ele o faz em uma tentativa através da memória, e de contar isso.

Contar pra quem? Talvez para quem tenha a curiosidade, e que faça desse discurso repetido algo novo. Por isso me faz sentido continuar esse trabalho, ouvindo essas histórias como se fosse a primeira vez, e extrair talvez daí a importância da psicanálise como tratamento do real, do insabido, às vezes exposto, que a velhice pode apresentar, seja num corpo fragilizado pelo tempo, ou pelo que Angela Mucida (2004) chama de “segregação asilar”, descrita da seguinte maneira:

“O despojamento de todos os objetos, o parco salário pelo qual os asilados, aposentados ou não, poderiam escolher pequenas coisas que lhes trouxessem insígnias de suas diferenças, tudo isso é dissolvido em prol de uma sobrevivência que, para muitos, torna-se apenas uma monótona e insuportável espera da morte. Asilam-se os traços de uma profissão exercida, os traços marcados em pequenos objetos, as lembranças marcadas nas paredes de um quarto, de uma cozinha, nas paisagens do dia-a-dia, nos odores que povoam cada ambiente, pequenos matizes com as quais cada sujeito tece sua cobertura de vida… Tudo isso é deixado pra trás com a entrada no asilo-exilo. Essa representa para muitos a “aposentadoria” da possibilidade de desejar”.

Essa parece ser, então, a aposentadoria nociva. Não a de um corpo que executa menos, e que ao mesmo tempo sofre mais, mas sim dessa ameaçadora e tenebrosa impossibilidade de desejar. Isso se torna uma demanda legítima de análise, se pensarmos que envelhecer num mundo permeado pelo novo tornou-se uma nova forma de mal-estar na cultura (tema com que, para Freud, a psicanálise deve se haver e responder suas questões advindas). Em outras palavras, a perspectiva aberta pela psicanálise se dá no embate de um corpo finito, a partir da dimensão do inconsciente, e a importância da ética do desejo.

O sentimento de velhice seria, então, o cerne da questão, e não a velhice em si.

Estamos falando de uma demanda atual, legitima, e em crescimento. O IBGE diz que o número de brasileiros acima de 65 anos vai quadruplicar até 2060. A população com essa faixa etária deve passar dos atuais cerca de 15 milhões (7,4% do total) para 58,4 milhões (26,7% do total) em 2060, aumentando a expectativa de vida no período dos atuais 75 anos para 81 anos.

O sentimento de velhice seria, então, o cerne da questão, e não a velhice em si.

Por ser algo relativamente novo na psicanálise, não encontramos muito sobre essa clínica especifica, já que muitos analistas consideram o idoso, um adulto (como outro qualquer), ou se baseiam na herança (equivocada) deixada por Freud que defendia que: “nos idosos costuma faltar, de um lado, a plasticidade dos processos anímicos que depende a terapia, as pessoas idosas não são educáveis, na velhice as defesas estariam por demais assentadas, e não haveria um tempo hábil às retificações e mudanças subjetivas” (Freud, Sobre a Psicoterapia 1905). Vale lembrar que essas afirmações são oriundas de uma época onde a expectativa de vida não passava dos 40, 50 anos de idade. Fora isso, sabemos como é incomodo falar de velhice, já que ela expõe o limite ao qual nós estamos submetidos.

Por outro lado, a abordagem de uma clínica analítica com a problemática da velhice se apoia em teses freudianas essenciais, tais como:


1Na análise existe um só sujeito, o sujeito do inconsciente, e esse não envelhece.
2Tratando-se de realidade psíquica, não há diferença entre um fato passado e um atual. O sintoma sinaliza a atualidade do passado.
3Na indicação de análise, importa a forma como o sujeito se coloca frente à falta do Outro e sua relação com o desejo, não determinado pela idade, e muito menos pela quantidade de material psíquico.
4O conceito de pulsão é averso a qualquer noção desenvolvimentista. Freud afirma que a pulsão é sempre parcial e a sexualidade adulta é a sexualidade infantil.

Hoje, além de vivermos mais tempo, ainda contamos com avanços tecnológicos que visam tardar cada vez mais o envelhecimento. Isso traz efeito ao conceito de velhice.

Ainda citando Mucida:

“O envelhecimento é definido como um processo que acompanha o organismo do nascimento à morte. A velhice é um momento específico dentro desse processo, marcado pelo agudizamento de diferentes reduções e modificação do funcionamento de diversas funções, não implicando  todavia no acumulo de doenças”.

Desde que nascemos, ou seja durante o processo de envelhecimento, vamos vivenciando pequenos e grandes asilamentos. Eles existem desde sempre, mas sempre para dar lugar a outra coisa, pessoa ou experiência, que no cabo de guerra psíquico (prazer – desprazer) o saldo é quase sempre positivo.

Já na velhice, o saldo não é mais predominantemente positivo. Para Jack Messy, por exemplo, a velhice é: “uma ruptura brutal de equilíbrio entra perdas e aquisições”. E, ainda, para Le Gouès a velhice é marcada pelo momento em que o fantasma da eternidade encontrará um limite, até então ignorado pela libido (convicção narcísica do eu).

Vale pensar, então, que classificar uma pessoa como velha por seus 60, 70, 80 anos, mesmo que isso nos dê algumas indicações relativas aos possíveis aspectos corporais, fisiológicos ou mesmo sociais, não indica como cada sujeito vivencia tais inscrições a partir de seus traços e o particular de sua história.

Aqui é onde se lança a afirmação de que o sujeito se vê velho, reconhece seu envelhecimento pelo olhar do Outro, ou pela imagem que o outro lhe devolve. Aliás, essa é a matiz da constituição do sujeito (não só do sujeito idoso). Assim nos ensinou Rimbaud: “O Eu é Um Outro”

Não existe, então, algo palpável que sinalize a velhice, pois velho é sempre o outro… E por ser o Outro, é que o Real difícil de suportar na velhice ancora-se também na negação própria do inconsciente.

Sobre isso Freud nos conduz a pensar no inconsciente como a ausência de distinção sujeito-objeto do desejo (lugar que só pode ser atribuído por um Outro, e da percepção do prazo (tempo, anos, idade). Vimos em Freud que o eu é acima de tudo um eu corporal, e é no corpo que esse tempo e a intensidade desse tempo se inscrevem. Baseado nessa afirmação, Nasio vai além, e diz que o Eu é uma instância identitária (nomeando o si mesmo de um sujeito). Em última análise, o eu seria a imagem do corpo. Aqui vale lembrar que percebemos a coisa real através da lente da fantasia, e com o corpo não é diferente: sempre nos relacionamos com nosso corpo a partir desse ponto de vista turvado, ou seja, com o corpo fantasiado.

A identidade, então, advém do pré-consciente, instância que sofre influências do simbólico, do  imaginário, a partir de ideais paternos, da sociedade, da cultura. (Somos o tempo todo atravessados por essas marcas simbólicas, para daí criarmos uma identidade). Sendo assim a identidade pode se fazer, se desfazer, se refazer…. e esse talvez seja o trabalho da psicanálise em relação à velhice, levando em consideração as novas expectativas: refazer a identidade, desse velho sujeito/sujeito velho.

“A velhice é um estado de espírito”, disse Maud Mannonni. “Existem velhos de 20 anos e jovens de 90”. Sabemos que alguns traços de caráter e mecanismos psíquicos muitas vezes atribuídas a velhice, como atitude ranzinza, dificuldade sublimatória ou resistência às mudanças, por exemplo, não são exclusividade dos velhos.

Esse “estado de espírito”, para a psicanálise, encontra-se alojado no desejo.

ENVELHECIMENTO E PERDA DO DESEJO

Como vimos no início, o que faz um sujeito envelhecer é a perda do desejo, e se mantém jovem quem consegue, no decorrer do processo de envelhecimento, circular o desejo naquilo que se é possível, mantendo vivo… o presente.

Sobre isso, segue o comentário de uma senhora de 81 anos, que diz:

“Pra mim, a velhice é mais uma experiência, sinto-me mais segura com o que eu quero. Para outros, ela é queixa de doenças e o pensar na morte. Não fico premeditando a vida nem a morte. Até hoje não acredito em velhice; estou velha de idade, de corpo, mas não me sinto velha. Nem quando a dor me ataca os ossos eu me sinto velha; não uso a expressão ‘é a idade’. Não gosto de falar em velhice, em idade; há alguns que com 50 anos se sentem velhos, se dizem velhos, talvez achem mais cômodo falar e pensar assim. Acho que não existe velhice e, se existe, ela pode ser uma acomodação: se não posso comer uma coisa, como outra, se não posso fazer uma coisa, faço outra. Sinto-me mais segura, posso ensinar mais às pessoas, posso doar mais.”

Pensando sobre a ética do Desejo, a problemática encontra-se justamente nesse “fazer outra coisa, comer outra coisa”. Trata-se de uma jornada de mãos dadas com a  angústia remetida à identidade, seja pela perda dela, ou pela busca de uma outra.

REFERÊNCIAS

MUCIDA, Angela. O sujeito não envelhece . 2 ed. Belo Horizonte, 2004.

GOLDFARB, Delia. Corpo, tempo e envelhecimento. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1998.

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Fernanda Miranda

Fernanda Miranda

Psicanalista, educadora física e naturopata. Atende adultos e adolescentes em Pinheiros, São Paulo.

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