Opinião

A vida não tem spoiler

Sou fã incondicional de spoiler. Saber de antemão o que vai acontecer é algo que me fascina e não tira o prazer da experiência de ver o filme ou série. Será que o mocinho morre? Se há um plot twist… Saber o que vai acontecer ameniza as expectativas e faz querer ver mais. Posso ser uma exceção mas, no meu caso, que sou fã de séries que contém cliffhangers, um spoiler é bem-vindo. Quando não há spoiler, confabulamos, criamos as teorias mais diversas. Depois de uma longa espera, confirmamos nossas teorias ou nos surpreendemos.

Na vida, isso não existe. Tentamos de diversas formas ter um spoiler de nossas vidas. Clarividência é algo muito bem-vindo nas nossas vidas. Será que meu relacionamento vai dar certo, fiz a escolha profissional correta, meu time vai ganhar o campeonato etc. Não faltam palpites, chutes e até mesmo pessoas que se dedicam a prever o próximo capítulo. A ansiedade de não saber o que está por vir pode dar lugar ao medo.

Ficamos paralisados, à espera de alguma luz. Alguém que pode nos dizer qual caminho é seguro seguir. Essas pessoas, de quem esperamos respostas iluminadas, são as mais diversas. Um guru espiritual, cartomante, astrólogo, pai, mãe etc. Como se não bastasse a escolha dessa pessoa, temos que acreditar nas suas credenciais. Sua experiência, casos de sucesso, previsões certas. Não basta seguir, tem que acreditar também.

Essa situação nos deixa vulneráveis. Em alguns casos, dependentes. Não tomamos nenhuma decisão sem consultar alguém. Nossas escolhas precisam ter algum tipo de validação do outro. Não ousamos fazer algo que não seja uma recomendação feita por pessoas que têm alguma credibilidade no assunto. Ainda querer acreditar que há um caminho mais seguro é inevitável.

Nossas próprias experiências necessitam de validação. Mas a quem pedimos essa validação? Mesmo quando a obtemos, é suficiente? Se resolvemos ser criativos e ousar fazer algo que ninguém tenha feito, a quem recorremos? São inúmeros impasses. Quando somos crianças e imaginamos o que queremos ser quando crescer – médico, professor, músico etc. –  temos uma idéia agradável de como será. Mas, ao longo do tempo, perdemos um pouco do encanto devido ao choque de realidade ou, até mesmo, a falta de incentivo.

Quando crianças temos esse “instinto spoiler”: vai ser assim. Porque desistimos? Encontramos algo mais interessante ou mais possível? Prendemo-nos no que os pais – ou qualquer outra pessoa que nos influencie – acham interessante. Porém, há um resquício que mantemos. Algo que ainda cultivamos secretamente. Longe do que os outros podem vir a questionar ou criticar. Achamos que é uma bobeira sem importância. Mas uma bobeira é mantida viva em nós por acaso? Não.

Esquecemos para não nos responsabilizarmos por algo único nosso. Quanto mais nos adequamos ao mundo, mais esquecemos dessa bobeira infantil. O resultado disso é um sentimento de que nos falta algo. Retomar algo infantil não é fácil. Quem se dispõe a escutar algo assim? E a coragem de falar de algo tão único e íntimo? Nós nos censuramos e acabamos nos reprimindo.

Ousar quebrar esse silêncio e ser escutado inaugura algo novo. Relembrar e criar coragem de nos autorizarmos a ser o que sonhávamos na infância. Não é algo objetivo como, por exemplo, ser médico ou advogado. Mas algo de uma posição subjetiva despida de censuras e inibições. O ser curioso que, depois de desmontar um vídeo cassete, foi duramente repreendido. Uma ânsia em saber algo, conhecer o novo. Quem curte spoiler quer logo saber o que vai acontecer.

Então, o que você quer saber?

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Cadu Murakami

Cadu Murakami

Psicanalista e psicólogo, professor no Instituto Langage. Atende adolescentes e adultos em Pinheiros, São Paulo.

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1 Comentário

  1. Sharlene Laporta
    09/11/2017 at 6:25 PM — Responder

    Ser adulto não é fácil, eu tenho meu manual de instruções. Mas minhas emoções. Estão 8 ou 80.
    Enquanto eu não estiver em 50 °/. do 8 e 80. Quando o id ego e super ego . Ficarem mais ou menos. E parar de estar + ou -. As intensidades eu consiga viver com mais ou menos. Não 8 ou 80.
    Terei paz.
    Mas enquanto isso vivo o mais com orgulho e o menos com orgulho. Sou feliz com minhas emoções. Sinto todas elas com prazer.

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