ClínicaPsicanálise

ANGÚSTIA, PASSAGEM AO ATO E ACTING-OUT

Como escutamos a angústia em um tratamento analítico? O que é possível diante desse inomeável? Primeiramente, do que se trata quando falamos em angústia? Angústia de quem? Do paciente? Do analista?

Segundo Lacan, a estrutura da angústia não está longe da fantasia, na verdade trata-se do mesmo.

Sentir o que o sujeito pode suportar de angústia é uma tarefa que coloca o analista à prova a todo instante, e a comunicação dela pode orientar no sentido de dosá-la, ao longo do tratamento.

Contudo, será que a angústia do analista é a mesma do paciente?

Lacan relaciona a angústia com o desejo do Outro, utiliza-se da metáfora e faz alusão a um louva-a-deus: “não via minha própria imagem no espelho enigmático do globo ocular do inseto”. O ponto de articulação é que se estrutura a relação do sujeito com o significante. E o que isso quer dizer? É o que foi pensado por Freud com relação à subjetividade, e a pergunta “que queres?”, ou melhor, “o que quer ele de mim?”. O enigma é com relação ao “que quer ele a respeito deste lugar do eu?”.

O enigma que o sujeito faz com relação ao que o Outro quer dele tem relação com o desejo e com a identificação narcísica. É com relação à dialética que ata tão estreitamente e se introduz a função da angústia. Devemos nos orientar em função dos momentos em que ela aparece, ver em que pontos privilegiados ela se manifesta, emerge.

Em “Inibição, sintoma e angústia”, Freud considera que a angústia é algo que sentimos, ou seja, se trata de um estado afetivo, como um sentimento. Porém, tem um caráter de desprazer acentuado e surge como uma reação a um estado de perigo e é reproduzida sempre que um estado dessa espécie se repete.

O que para Freud é um caráter determinante da angústia é a ocorrência de uma situação traumática, e a essência disso é uma experiência de desamparo por parte do ego, frente a um acúmulo de excitação, que pode ser de origem interna e externa, com a qual não se pode lidar. Sendo assim, a angústia é tida como um sinal e resposta do ego frente à ameaça de uma situação traumática, tal como a separação ou a perda de um objeto amado, ou uma perda de seu amor que o coloque numa situação de desamparo.

Neste artigo, Freud escreve que a primeira experiência de angústia de separação por que o sujeito passa é no nascimento, na separação da mãe. Após passar por essa primeira experiência de angústia, o ego reconhece outras situações que seriam novamente um sinal de alerta frente à ameaça de castração. Contudo, nenhuma outra repete essencialmente a primeira frente ao nascimento e ao desamparo na separação do objeto de amor. Dessa forma, o ego desenvolve sintomas como resposta diante da angústia, como uma maneira de se defender desse afeto. Tal como a inibição, que seria uma evitação de situações ou de um objeto específico que o ego julga como uma ameaça.

Lacan, em seu seminário sobre a angústia, menciona o caso do pequeno Hans que, diante da fobia que sentia, localizou um objeto e encontrou uma imagem que acalentava ou nomeava o medo dele. Seria apressado concluir que a angústia esta aí, esteve, mas já escapou. Só tem sentido ao deixar o vazio em que existe a angústia, não há rede ao redor, não há rede de proteção.

É aquilo que não é recoberto pela palavra, pela noção ou pelo conceito. Alguma coisa vem antes, algum pensamento que não encontra representação, é parte do sujeito que se perde. Trata-se da imagem que não se faz para o sujeito.

A inibição, como resposta frente à angústia, como aquilo que não apresenta movimento, nos faz deparar com o impedimento, leva à forma leve de angústia, que Lacan denominou como embaraço. Trata-se de saber onde está a angústia, de fato.

Contudo, não saberemos, pois fica vazio, escapa de sentido, tem relação com o termo utilizado pelo autor, “efusão”, ou melhor, perturbação. Perturbar-se mais profundamente na dimensão do movimento.

Para Lacan, a angústia não é uma emoção e, sim, um afeto. “Não é recalcado; se desprende, fica à deriva, o encontramos deslocado, enlouquecido, invertido, metabolizado”.

A angústia tem relação com o desejo. O caminho do analista é fazer surgir tudo o que esse discurso com relação ao desejo comporta, como consequência para a teoria dos afetos, para assim dizer, a angústia. E devemos nos ater ao momento agudo dela.

A sugestão de Lacan com relação ao cuidado do analista em se ater ao momento agudo da angústia, e assim, do manejo com relação ao cálculo que se deve fazer desse afeto, é necessária em um tratamento analítico, principalmente quando escutamos algum tipo de ato do lado do paciente, pois as passagens ao ato ou actings-out podem ocorrer como respostas possíveis frente a angústia.

Lacan, no mesmo seminário, faz relação do objeto “a” com o sujeito e o Outro, ou seja, é na relação do sujeito com o Outro que ele se constitui como resto.

Para melhor compreensão, retomo o que seria o objeto “a”, o objeto causa de desejo, o objeto para sempre perdido. Diante dessa falta, o sujeito é causado pelo desejo de encontrá-lo. Toda a existência do Outro fica suspensa numa garantia que falta, pois o Outro é barrado, e dessa operação há um resto, que é o objeto “a”.

Retomo o tema que trouxe acima sobre a passagem ao ato, em que esse momento é o de maior embaraço do sujeito, é o momento de apagamento do sujeito. A estrutura da passagem ao ato é essa em que, do lugar em que o sujeito se encontra, do lugar da cena, historizado, ele se precipita e despenca fora da cena. É o que Lacan chamou de “largar de mão” , “deixar-se cair”, “o sujeito se encaminha para se evadir da cena”.

“A que chamamos fuga, no sujeito que nela se precipita,

sempre mais ou menos colocado numa posição infantil,

senão a essa saída de cena, à partida errante para o mundo puro,

na qual o sujeito sai à procura, ao encontro de algo rejeitado,

recusado por toda parte? Ele vira fumaça, como se costuma dizer

e, é claro, retorna, o que talvez lhe dê ensejo de ser valorizado.

A partida é justamente a passagem da cena para o mundo.”

(LACAN, Sem. 10, 1962, p.130).

De um lado, o mundo, lugar esse em que o Real se comprime e, do outro lado, a cena do Outro, onde o homem como sujeito tem de se constituir, tem de assumir um lugar como portador da fala. Ele só pode portá-la numa estrutura que é uma ficção: a realidade como uma ficção, e é aí que o sujeito se constitui, nessa cena, outra cena, obscena, em que somos atravessados pela linguagem e pela sexualidade. Constitui-se entre a cena do Outro e o mundo.

“Diante da cena do Outro”, Freud também a relaciona com a angústia, pois nos indica que ela é um sinal no eu. Ora, se está no eu, deve encontrar algum ponto do lugar do eu ideal. Esse sinal seria uma espécie de borda no campo imaginário do eu, ou seja, o eu ideal é a função com a qual o eu se constitui através de suas identificações com alguns objetos.

A angústia, como Freud nos disse, é um fenômeno de borda, como um sinal, que se produz no limite do eu, quando este é ameaçado por alguma coisa que não aparece. A essa alguma coisa Lacan chamou de objeto a, o resto, abominado pelo Outro. A origem da angústia está no nível pré-especular e pré-autoerótico do nascimento.

Segundo Lacan, os fenômenos de despersonalização são concomitantes à angústia. Ele define esses fenômenos como aqueles que passam pelo não-reconhecimento da imagem especular, ou seja, é ao não se encontrar no espelho, ou em qualquer coisa análoga, que o sujeito começa a ser tomado pela vacilação despersonalizante. Se o que é visto no espelho é o que angustia, é por não ser passível de ser proposto ao reconhecimento do Outro.

 

O ACTING-OUT

Segundo Lacan, o acting-out é o oposto da passagem ao ato. Ele chama a atenção para a que ponto, na escuta clínica, deve-se segurar pela mão para não deixar o sujeito cair. É o que ele considera essencial num certo tipo de relações do sujeito. E se deparar com isso em uma análise significa a aparição do “a” para o sujeito e que pode ser motivo do mais incômodo.

O acting-out é alguma coisa que se mostra na conduta do sujeito e a ênfase demonstrativa de todo acting-out está na sua orientação para o Outro, ou seja, é aos olhos de todos que se exibe a conduta. Quanto mais escandalosa se torna essa publicidade, mais se acentua sua conduta, e o que se mostra essencialmente é diferente do que é.

É a mostração, a mostragem velada. O que é essencialmente mostrado é o resto, sua queda, é o que sobra nessa história e tem relação com o objeto causa de desejo. Entre a relação do sujeito em sua estrutura de ficção com o Outro, o que surge é esse resto “a” e o que o sujeito tenta de vários modos é tampar os furos do desejo. Contudo, é isso que aparece no acting-out.

O acting-out é o pequeno “a” e tem relação com a demonstração do desejo desconhecido. Essa atuação (acting-out) é um sintoma e, como sintoma, deve ser interpretado, mas não diretamente: é preciso haver transferência para isso. O acting-out clama pela interpretação e é um apelo ao Outro, trata-se daquilo que ele quer mostrar ao Outro. Ele é a transferência selvagem, é o começo da transferência e convoca ao manejo dela.

Lacan propõe três maneiras de agir diante de um acting-out: interpretá-lo, proibi-lo e reforçar o eu.

No que diz respeito à interpretação, está fadada a obter poucos efeitos, por mais que o sujeito que pratica essa atuação demande e se ofereça para a interpretação. O que deve ser interpretado aí não é o sentido e, sim, o resto. O acting-out é endereçado ao Outro, contudo, quando se está em análise, é endereçado e dirige-se à figura do analista.

A outra opção – a proibição – é quase como uma recomendação aos sujeitos em análise para que não tomem decisões essenciais em suas vidas nesse período, pois a decisão ou ação pode representar uma atuação. Isso porque o sujeito está no momento de compreender, ou até mesmo no instante de ver, e a conclusão pode ser muito rápida, muitas vezes precipitada, por assim dizer, atuada e perigosa.

Por último, no reforço do eu trata-se de levar o sujeito a uma identificação. Mas, não a uma identificação com a imagem como reflexo do eu ideal no Outro, e sim com o eu do analista. Sair do campo do imaginário e da imagem. Ou seja, essa crise pode promover e possibilitar uma desidentificação com o eu ideal e com essa imagem, ou melhor, uma desidentificação com essa captura em sustentar a imagem de um eu ideal, para o Outro. A crise representa a insurreição do “a”, a objeção, a insubordinação do “a”.

O que podemos pensar, então, é que o que está em questão no acting-out é o resto, o dejeto, aquilo que detém tudo.

Isso revela o que Lacan disse com relação à cena aos olhos do outro, em que havia o endereçamento ao Outro e, consequentemente, à figura do analista.

Segundo Trobas, o que Lacan propõe sobre a angústia é que esse afeto fundamental resiste à simbolização, ou seja, o que não pode estar simbolizado é o objeto “a”. Dessa forma, a angústia refere-se estritamente a esse objeto, consiste em um afeto que revela a verdade do simbólico, como incompleto, e que põe em tela a verdade do desejo do sujeito, na medida em que o objeto “a” ocupa a função de causa do desejo e é indicador do perigo na instância do Eu.

Para isso, retomamos o efeito do Édipo e as consequências para a subjetividade, que giram ao redor da angústia, frente a um fenômeno de nossa civilização, que é o fenômeno da decadência da função paterna, mais precisamente do papel que cumpre a autoridade nessa função.

Esse fenômeno foi chamado de uma certa rebeldia contra o pai e o que Lacan compreendeu era de que se tratava de uma aspiração por um mestre. Com a degradação da autoridade paterna, há uma alteração na formação do Ideal do Eu e de uma nova complexidade do superego, que levam a uma inflação narcisista do Eu.

A função paterna é o que possibilita que o sujeito se oriente com relação a algo, que não perambule à deriva, abismo esse que desorienta o sujeito e dificulta a relação dele com a civilização e proporciona uma falta de sentido, um esvaziamento intenso com relação a vida. É quase como se viver fosse um vazio imenso.

Segundo Trobas a função do Nome-do-pai estrutura o saber e, se não há essa função, temos um efeito em que o sujeito fica perdido com relação à lei simbólica. Dessa forma, o saber inclui o efeito do Nome-do-Pai, pois este nome introduz um buraco no conjunto dos significantes.

Entre S1 e S2, o sujeito se inscreve nesse meio, entre um lugar que representa um significante no lugar de outro e, assim, vai se estabelecendo a cadeia de significações. Contudo, se essa cadeia não se estabelece, produz algo de um deslizamento em que o sujeito não encontra um ponto em que se localiza. Entre S1 e S2, e o vínculo que se estabelece entre o sujeito e o significante, perde-se algo de um gozo original e resulta em um gozo parcial, que Lacan define como objeto “a”.  Esse objeto é produto e tem um efeito de perdido, tal como o objeto perdido e, assim, esse objeto cumpre a função da causa do desejo.

Dessa forma, a estruturação do mundo dos significantes é o que necessita da intervenção do Nome-do-Pai. Mas como chegamos ao que podemos chamar de Nome-do-Pai?

Temos um agente, como o pai, ou algo que faça a função de ser objeto de amor e desejo da mãe, que proíbe, interdita e que atua no nível da operação simbólica da castração. A função desse agente vai do Real até atuar e concretizar a função simbólica, produzindo como efeito que o sujeito saia da posição de ser ou não ser o falo para a mãe, levando-o a ter ou não o falo.

O ser o falo, em vez de ter o falo, implica uma confusão imaginária, pois a articulação da falta de ser e do falo é o gozo fora de uma elaboração simbólica e, consequentemente, fora de uma lei simbólica. Podemos pensar que é o que acontece na psicose.

 

ANGÚSTIA DE CASTRAÇÃO E A CONFUSÃO IMAGINÁRIA

Se a angústia de castração não está posta em jogo pelo agente paterno, ou por algo que faça essa função de corte, de interdição com relação ao desejo materno voraz frente ao bebê, temos como consequência uma identificação imaginária com o falo, e não uma repressão. Dessa forma, ocorre o enfraquecimento ou ausência da função paterna e, consequentemente, a atuação ou não da operação simbólica diante da função paterna, o que chamamos de Nome-do-Pai. Esse enfraquecimento altera e transtorna o mecanismo do recalque, pensando no fracasso acentuado do recalque, diante das circunstâncias descritas acima, e o recalque como sendo uma resposta, uma defesa frente à angústia da castração.

Podemos pensar que sintomas são formados, sintomas como satisfação pulsional, de tal modo que há uma tentativa do sintoma em elaborar e superar a angústia de castração. Dessa forma, o que faz um sujeito procurar uma análise é um sintoma que tem fracassado.

 

A PASSAGEM AO ATO

Há um outro modo de defesa do sujeito frente à angústia que se diferencia do recalque, mas também se apresenta como uma forma aguda de não querer saber, como um rechaço do saber: é o que podemos pensar da passagem ao ato.

O conceito de passagem ao ato e a sua primeira noção foi introduzida pela criminologia e fazia referência à impulsividade, mais precisamente relacionado à impulsividade de condutas violentas ou agressivas, e também foi associado à loucura.

Em Psicanálise, não se exclui esse aspecto. Contudo, se inclui a extensão conceitual de que as passagens ao ato são fenômenos mais variados que esses, e mais discretos e recorrentes.

Na passagem ao ato ocorre um ganho com relação ao rechaço do saber e há um traço de impulsividade, uma ruptura em uma continuidade não só com relação à conduta, mas também à subjetividade.

Trata-se também de uma troca da temporalidade subjetiva que se manifesta por um “surto”, ou seja, uma aceleração de uma dimensão de urgência. Sendo assim, é um traço de impulsividade, de corte subjetivo, em um tempo condensado e tem uma relação estreita com a angústia.

É um modo de resposta a algo que é um sinal de perigo, representado pelo objeto pulsional, objeto “a”, e sua irrupção na subjetividade, sendo que há uma forma mínima de elaboração. É aquilo que Lacan definiu como o fantasma fundamental.

A passagem ao ato é a forma menos elaborada da resposta frente à angústia.

A passagem ao ato é a forma menos elaborada da resposta frente à angústia. É como se os recursos simbólicos falhassem, ou fossem insuficientes, e o que faz o sintoma é o imaginário. É uma resposta do Real no afeto e se caracteriza por expressar-se diretamente no Real do corpo. Seu mal-estar provoca uma tensão que se torna insuportável e que não encontra palavra, representação.

A passagem ao ato se expressa no Real do corpo e retoma o caminho primário, bloqueia o pensamento e aperta ou pressiona, podendo haver, como consequência, paralisias. O efeito ansiolítico da passagem ao ato começa com este nível de descarga motora, independente de sua significação como realização específica de satisfação pulsional. Na passagem ao ato, a motricidade e o movimento, uma simples agitação que pode preceder e anunciar a impulsão do ato, há um sentido que para cada sujeito indica sua maneira de sair do contexto da cena em que caiu e não se deu seu trabalho de significação.

Toda a passagem ao ato é uma espécie de fuga para se proteger da dimensão da angústia que ameaça o Eu.

O ato é um impacto, no Real, de uma decisão subjetiva, uma ação de transformação da realidade do sujeito, mediante uma ação corporal, ação esta que está vinculada a uma decisão resultado de um processo subjetivo que ocorre como consequência de passar pelos três tempos lógicos:

1 – O instante de ver; 2 – o tempo para compreender; 3 – o momento de concluir.

Na passagem ao ato, em seu processo de decisão subjetiva (devido à dimensão da instantaneidade), o sujeito vai do instante de ver ao terceiro momento de concluir, por um salto da impulsividade, pois a ameaça da representação problemática atravessada pela angústia empurra o sujeito em um curto-circuito no tempo para compreender, e se precipita ao momento de concluir.

Esse curto-circuito no tempo de compreender é comum na clínica de sujeitos que passam ao ato quando são interrogados, diante da dificuldade, ou melhor, diante da impossibilidade de dizer o que estavam pensando justamente antes da passagem ao ato. Não se trata de uma amnésia, mas sim de uma elisão do tempo para compreender.

Na passagem ao ato há um limite com relação à capacidade de simbolização e que corresponde precisamente ao ponto em que o sujeito se encontra com o enigma do desejo do Outro, e há um fracasso dessa intersubjetividade nesse encontro, no qual ocorre a aparição da angústia.

Esse afeto emerge justamente no espaço entre o tempo para compreender e o momento de concluir. Devido a esse intervalo e à impossibilidade do simbólico em comparecer, há um salto arriscado em que, no momento de concluir, há uma precipitação e o encontro do sujeito com seu desejo.

A passagem ao ato obedece à repetição. Contudo, há uma tentativa de se inscrever algo novo e, dessa forma, a segunda vez não será como a primeira, pois houve consequências e o sujeito, sabendo disso, não está mais na mesma posição em que esteve na primeira vez.

Diante do enigma com relação ao desejo do Outro, o sujeito constrói uma resposta imaginária, tal como uma defesa, que é o que Lacan denominou como “fantasma fundamental”. Diante de algumas situações, o sujeito é convocado a responder com a causa de seu próprio desejo e a angústia é justamente esse afeto frente ao desejo do Outro: o sujeito fica na impossibilidade de responder e ele mesmo se precipita como objeto.

Na passagem ao ato, o sujeito fica fora da cena, cai, se precipita no Real e realiza uma identificação em que se faz objeto “a”. É um atravessamento selvagem do fantasma, sendo assim inverso à construção dele. Por assim dizer, vai no sentido oposto da elaboração de saber acerca disso.

Sendo assim, não se interpreta a passagem ao ato, pois não há saber e, se a interpretamos, o saber é do analista e não do paciente.

Já o acting-out se trata de uma ação e tem relação com conteúdos reprimidos, em que o sujeito cria uma ficção e até mesmo estabelece relações de causa e efeito, como uma dimensão de racionalização. Contudo, nenhuma ação transcende os efeitos do inconsciente, do recalcado.

Esse fenômeno acontece e ocorre em muitos momentos da vida de um sujeito. Porém, verifica-se isso com maior atenção no manejo de uma análise. O analista deve ficar atento a isso como cálculo da angústia, pois se trata de uma forma de fracasso.

[O acting-out] tem a dimensão de exibicionismo, é uma mostração em que se acentua no elemento visual, escópico, algo que se apresenta essencialmente no plano das imagens e, portanto, no registro imaginário.

Diferentemente da passagem ao ato, que carrega em si o caráter de impulsividade, pensando numa saída precipitada do percurso analítico e sendo vivenciado como uma dissociação diante do encontro com o objeto “a”, o acting-out não se inscreve como repetição. Este tem a dimensão de exibicionismo, é uma mostração em que se acentua no elemento visual, escópico, algo que se apresenta essencialmente no plano das imagens e, portanto, no registro imaginário.

Trata-se de colocar em cena um objeto que captura o olhar, em que há uma mostração de uma cena que inclui o sujeito. Ele é expectador do que exibe e o significado é muito claro, mas há um enigma para o sujeito com relação à causa disso e o significado não está conectado a uma causa.

O acting-out é a entrada intempestiva na cena e a passagem ao ato é a saída impulsiva da cena.

No acting há algo que se distingue das associações habituais e, especialmente, de um processo de rememoração, em que há uma narrativa descritiva no relato da lembrança desse fenômeno e nenhuma dificuldade para evocar o acontecimento. É como se o sujeito não estivesse verdadeiramente afetado naquilo que conta, não está enredado na elaboração de um sentido que o captaria no acontecimento.

Quando o sujeito rememora algo, é possível perceber os efeitos da repressão com as dificuldades de encontrar palavras, lapsos, idas e voltas, descontinuidades. Contudo, no acting-out não há um trabalho interpretativo do analisante.

No acting-out não há um trabalho interpretativo do analisante.

Segundo Trobas, esse fenômeno tem relação também com o efeito de algo relacionado à intervenção do analista, pois o acting-out é uma resposta dirigida a essa figura, como uma série dos fenômenos da transferência, e tem relação com algum ponto especialmente sensível do campo do sujeito que foi tocado pela intervenção do analista. Dessa forma, o campo em questão é o das defesas do sujeito.

O acting-out supõe uma intervenção do analista que põe em jogo o campo mais além da demanda, a saber, o desejo em sua articulação com o complexo da castração. O desencadeamento do acting-out resulta de uma ação sobre a causa do desejo.

Isso nos faz pensar que o acting-out tem relação intíma com o objeto “a” e, quando uma interpretação do analista provoca esse fenômeno, tem a ver com o fato de ter tocado na defesa do sujeito contra esse objeto, e que tem como efeito uma emergência crua, não elaborada, uma reação antecipada do afeto para mobilizar e solicitar o registro imaginário. Isso difere o acting-out da passagem ao ato, em que se está diante do Real.

Retomando os três tempos numa análise (1- instante de ver, 2- tempo de compreender, 3- momento de concluir) o acting é de alguma forma um rechaço, uma recusa do momento de concluir e uma precipitação desse momento. O sujeito recusa que o seu “Eu sou” possa se sustentar como objeto causa de desejo e prefere voltar para trás. A mostração do acting sinaliza que o sujeito volta ao instante de ver e há um tempo de exposição que precede a compreensão.

Se pensarmos na intervenção do analista que aponta efetivamente o objeto a, ao produzir um acting, o sujeito dirige uma mensagem ao Outro, no caso, o analista. Dessa forma, a interpretação desse fenômeno é delicada e problemática, uma vez que a significação está bem constituída, fechada sobre si mesma.

A indicação, segundo Trobas, é de uma posição de espera no discurso do sujeito, por parte do analista, do momento oportuno em que se apresentem os significantes em jogo no acting-out, direcionar para a reinscrição dos significantes imaginários do acting-out nas cadeias significantes, de tal modo que o sujeito possa se reinscrever no fluxo de sua representação simbólica.

Essa orientação trata de propiciar que o sujeito, de sua posição de espectador, retome e volte para autor e agente de sua própria palavra, antes excluída.

 

Referências Bibliográficas

Freud, Sigmund. 1856-1939. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

Lacan, Jacques (1901-1981) O Seminário, livro 10: a angústia. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.

Trobas, Guy. Tres respuestas del sujeto ante La angustia: inhibición, pasaje al acto y acting out. Nueva Escuela Lacaniana: Sede Miami, 2002.

 

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Patrícia Bouças

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