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Famílias e transtorno mental

O transtorno mental, aquilo que no senso comum chamam de loucura, é uma questão que envolve distintas implicações biológicas, psíquicas e sociais. Em uma sociedade capitalista, a loucura não tem lugar: o sujeito portador de transtorno mental torna-se improdutivo, mais dá trabalho do que trabalha, mais demanda cuidados do que cuida.

No senso comum, tudo que foge a uma certa normalidade, a um certo padrão adaptativo (geralmente balizado pela capacidade produtiva de um sujeito, por exemplo, o da criança atender as demandas da escola, ou a do adulto estar apto ao trabalho e às relações sociais), é enquadrado no campo das loucuras: a esquizofrenia, o transtorno de pânico, o autismo, a demência de Alzheimer, enfim, inúmeras condições psicopatológicas que fazem com que uma pessoa não seja enquadrada naquilo que a sociedade considera “normal”.

Nesse sentido, a miríade de estruturas, transtornos e sintomas que um sujeito pode construir ou desenvolver, precoce ou tardiamente em sua vida, ficam misturadas e colocadas em um espectro empobrecido pela dicotomia funcional versus disfuncional. Não pretendo aqui discutir o que é normalidade e anormalidade. Interessa-me, contudo, pontuar que, em nossa cultura, um sujeito portador de algum tipo de estrutura ou transtorno considerado socialmente inconveniente (inadaptado, improdutivo etc.) torna-se passível de isolamento, exclusão, internação, em vez de encontrar acolhimento, atenção, interesse social em seu tratamento.
O primeiro grupo social mais intimamente envolvido com o sujeito portador de transtorno mental é sua família. E a relação da família com o transtorno mental é de eminente importância para a psicologia e a psicanálise.

Em nossa cultura, não é comum as famílias se considerarem participantes da estruturação, desenvolvimento e adoecimento psíquico de um de seus entes.

Pelo contrário, há uma visão socialmente difundida do transtorno mental como uma particularidade, uma deficiência exclusiva do sujeito, frequentemente de origem biológica ou psíquica e sem implicações familiares e sociais.

No contexto da assistência pública, vemos com clareza os motivos que fazem com que as famílias busquem a internação psiquiátrica como única alternativa de tratamento possível ao sujeito portador de transtorno mental. Elas, as famílias, reproduzem no âmbito íntimo aquilo que a sociedade capitalista estabelece como lugar para o sujeito adoecido: qualquer um que seja fora da roda que precisa continuar girando. Essa exclusão social é ratificada, pois, familiarmente. Afinal, pai, mãe, irmãos, filhos precisam trabalhar, ganhar seu sustento, cuidar dos afazeres, das tarefas do lar, e o sujeito portador de transtorno mental vem bagunçar essa estabilidade, vem travar a roda.

É fundamental, portanto, termos em mente que o sujeito portador de transtorno mental se torna um transtorno para o capital. Ele só transtorna porque fere a produtividade da família, da sociedade. Ele toma o tempo dos outros sujeitos que deveriam estar dedicados a produzir e ganhar dinheiro. Ele custa recursos e tempo aos familiares. Ele dá trabalho. Um trabalho que não remunera, não faz girar a roda. Ele é parte e, muitas vezes, produto dessa roda que não pode parar de girar. Porém, quando o sujeito surta, adoece, desadapta, não se repensa a roda e seu giro: exclui-se o sujeito “defeituoso” para que a roda permaneça girando.

 

O PAPEL DA FAMÍLIA

No trabalho clínico ou institucional, a atitude da família que acompanha o paciente tem um peso determinante no tratamento e nas decisões que nós, profissionais, tomamos. Apesar de vivermos, hoje, um momento de intensa busca pela desospitalização do portador de transtorno mental, os familiares ainda costumam, prioritariamente, apresentar a internação como demanda explícita de intervenção e cuidado com o paciente. Ela espera que um médico resolva o problema do familiar, antes de tudo. E o problema do familiar é, em sua visão, gerado pelo “doente”. Assim, o paciente mesmo, aquele que é submetido à internação, pouco participa desse processo.

Na esfera pública, as pessoas penalizadas por más condições de vida, quando se vêem sobrecarregadas pela ocorrência do distúrbio mental, tentam transferir a responsabilidade pelo membro familiar para o Estado. Vamos pensar isso dentro de um contexto: a assistência psiquiátrica brasileira é, ainda, predominantemente hospitalar. O Estado firma convênios com empresas particulares, que prezam por seus interesses. Leitos psiquiátricos são objetos de venda. A demanda por internações é crescente. O ambiente urbano é dotado de tipos de relações interpessoais que não amparam de forma significativa o grupo familiar.

Por sua obrigação na regulação social, o Estado vem historicamente assumindo tal transferência. Tratar extra-hospitalarmente o paciente continua sendo um ato de regulação social, apenas com custos reduzidos. Não temos, ainda, uma política pública de promoção do cuidado com saúde mental dissociado dos aspectos econômicos e de disputa de responsabilidades entre Estado e família.

É preciso, pois, levar em conta esse contexto se quisermos entender os motivos que levam as famílias a encontrar na internação, no isolamento, na entrega ao cuidado médico a solução para suas demandas e, ainda, compreender como os dispositivos de atendimento psicológico contemporâneos contribuem para ou dificultam a resolução desse impasse.

Se, por um lado, as famílias depositam nos dispositivos de atendimento psiquiátrico e psicológico a expectativa de resolução, por outro lado, encontramos frequentemente nesses dispositivos um vetor oposto na atitude dos profissionais: o de que, muitas vezes, a família é o “problema”, a geradora do “problema” ou a complicadora do “problema”. Isso edifica um muro na relação entre terapeutas e familiares, além de produzir barreiras significativas para o tratamento.

Essa posição de parte dos profissionais da área, e presente na visão de muitos equipamentos de saúde públicos ou particulares, advém de fatos que não são inteiramente falsos. Há, regularmente, casos de abandono (em que a família apenas paga para manter o indivíduo institucionalizado, sem comparecer a visitas ou se interessar pelo tratamento), de agravamento da doença diante do contato com a família (por exemplo, pacientes internados que apresentam melhoras e, ao reencontrarem seus parentes, pioram) ou de adoecimento familiar (em que o problema é coletivo, não restrito a apenas um membro da família).

Nesses casos e nos contrários — aqueles em que a família assume responsabilidade no apoio e colabora intensamente com o tratamento — fica clara a importância da família e sua participação ativa, seja antes, durante ou depois da intervenção dos profissionais e equipes multidisciplinares.

O transtorno mental produz medo e inquietação na família. Ele produz uma ruptura na trajetória existencial do sujeito e, consequentemente, do grupo familiar. Desestrutura as formas corriqueiras de lidar com as situações cotidianas. Os familiares passam a não saber como agir.

Uma turbulência de dúvidas e conflitos surge enquanto tentam explicar o aparecimento da doença. Sentimentos de perplexidade, culpa, inconformidade e isolamento afetivo/social são vividos intensamente. Os elos são postos em cheque. Lealdade e compromisso, atributos potencialmente presentes em qualquer grupo familiar, perdem as bases de sua existência. O ímpeto de proteção dos entes é ameaçada por forças desconhecidas. O poder de proteger é desafiado pela doença mental, gerando sentimentos de impotência e vitimização.

Quanto mais grave e duradouro o quadro, maiores as repetições de fracassos sociais dos “enfermos”, as dificuldades de comunicação e interação, a frustração e desespero que convidam a um progressivo isolamento da vida social.

 

O PAPEL DOS PROFISSIONAIS

É compreensível, pois, que muitas famílias se sintam responsáveis pelo “adoecimento” do indivíduo. Isso pode se dar de forma consciente ou inconsciente. Pais costumam se responsabilizar pelo adoecimento dos filhos. Essa culpabilização vem de um processo histórico, em que o próprio saber “psi” é contribuinte. A família muitas vezes é culpabilizada, colocada como agente patológico. O portador de transtorno mental torna-se depositário e porta-voz de um adoecimento de toda a família.

Porém, culpadas ou não, as famílias esperam que o saber psiquiátrico apresente resultados. Para elas, este saber promete uma cura. Esta visão provém da tese da cura como uma possibilidade e, portanto, do transtorno como algo crônico, mas não incurável. Contudo, o sujeito portador de transtorno mental escapa ao disciplinamento da produtividade, apresenta-se inapto ao convívio social, interfere e atrapalha a lógica racional e o controle das contingências. Logo, ainda que a psicologia e a psiquiatria promovam ações cada vez integradoras em um modelo de clínica ampliada, buscando um tratamento inserido no contexto social, muitas famílias procuram a repressão e a contenção do hospital psiquiátrico, local supostamente adequado para o isolamento terapêutico e o trabalho de retomada do controle sobre o sujeito “doente”.

Isso cria uma espécie de conluio do grupo familiar com a psiquiatria e, daí, a importância de a ciência psiquiátrica e psicológica apontarem novos caminhos para o tratamento. A começar pela desmistificação do transtorno mental como doença, destituindo os comportamentos ditos desviantes de um pesado juízo de valor e validando o sujeito portador de transtorno mental como diferente, alguém que tem problemas em sua relação consigo e com o mundo, mas não uma patologia.

Este movimento vem sendo feito, e de modo muito intenso, especialmente nas últimas décadas. A antipsiquiatria foi um movimento que originou e teve grande responsabilidade na criação de novos paradigmas e diretrizes de tratamento dos transtornos mentais. Contudo, no que se refere à participação da família, permaneceu reforçando teses extremamente parciais e unilaterais. Se, de um lado, o enfermo foi apresentado como resultado de um processo histórico e social, de outro a família permaneceu ocupando uma posição ora autoritária, ora simbiótica, mas sempre como participante da causa e manutenção do problema e, em geral, como entrave e não coparticipante do tratamento.

 

UM NOVO PARADIGMA

Na visão atual — um paradigma ainda em construção — a família é tomada por um viés mais positivo, no qual fica em foco seu potencial de favorecer a produção da autonomia e emancipação do paciente, ainda que não se ignore o caráter muitas vezes violento da instituição familiar.

O cuidado com o portador de transtorno mental é deslocado para a sociedade como um todo, ou seja, são levados em consideração os processos macrossociais que interferem ou determinam a organização dos grupos familiares e que, portanto, repercutem em suas relações.

A partir da compreensão da relação dos fenômenos sócio-históricos com a construção das subjetividades e, consequentemente, da adoção de uma visão menos negativa tanto do paciente quanto da família, esta passa a poder ser engajada e tratada também como paciente, tornando-se, junto do portador de transtorno mental, alvo direto da intervenção terapêutica.

Essa intervenção orientada para a família como um todo deve produzir mudanças na estrutura de relacionamentos do grupo familiar, promovendo a saúde mental de modo integrador e fortalecendo os vínculos.

Longe de ser uma utopia, esse paradigma está, de fato, em construção e, aos poucos, vem conquistando espaço e ganhando corpo nas esferas pública e privada. Entretanto, ainda há um longo caminho a percorrermos até que as famílias se tornem objeto de atenção na prevenção e promoção da saúde mental tanto quanto os pacientes que elas encaminham aos profissionais e equipamentos de saúde.

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Cezar Siqueira

Cezar Siqueira

Psicólogo e Psicanalista, mestrando em Psicanálise pela Universidad John F. Kennedy, da Argentina. É MBA em Gestão Empresarial pela FGV e também graduado em Comunciação Social pela Universidade de São Paulo. Realiza treinamentos e consultorias em instituições públicas e privadas. Atende adultos e adolescentes em Pinheiros, São Paulo.

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