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(id)EOLOGIA É O DESTINO?

 


Este texto foi produzido para o debate “(id)EOLOGIA: o inconsciente da política?”

realizado pelo NAPSI em São Paulo no dia 8 de dezembro de 2017.


“A posição feminina não se define pela anatomia”
– Lacan,  “Seminário 20” (1972/73)

 

Aqui, estamos congregados em debate psicanalítico, julgando – quiçá – que, mediante nossas ideias, poderemos explicar a própria sociedade em que vivemos.

Não! Pretensão impossível! Caso consigamos, o que queremos é, para dizer o mínimo, preservar o Discurso do Analista, evitando, assim, cair na tentação de oferecer respostas prontas e definitivas às causas que nos provocam inquietação.

Para “sabê-las”, basta acessar as mídias (ditas) sociais e, ali, eles estarão aos milhares e em Caixa Alta. Atualmente, além de Freud, quase todos/as explicam e parecem se considerar a Causa Final do Universo e, consequentemente, as assertivas dos opositores: mera “ideologia demoníaca”. Certo colega afirmou, em recente matéria jornalística na Argentina, que quem votou no candidato da oposição sofria de “masoquismo anal”, por exemplo. Um uso monstruoso dos conceitos psicanalíticos, que se torna de praxe![1]

Os discursos (ou laços sociais) são processos históricos, práxis diante da qual os humanos produzimos os meios ou formas de existência social (econômica, política e cultural). Como em toda modalidade discursiva (Lacan, Seminário 17), a verdade sempre está oculta e recalcada.

Proponho que denominemos essa “realidade dos laços” (oculta e recalcada, mas, ao mesmo tempo, motor que os impulsiona): (id)EOLOGIA.[2]

A questão que aqui me traz, desde o título desta provocação, é a seguinte: será possível prescindirmos de uma orientação ideológica?

Afinal, encontrar a “tchurma”, ingressar numa comunidade qualquer[3], sempre causa grande alívio para sossegar nosso desamparo existencial, produzindo a sensação de estar de volta para o “aconchego” (trazendo na mala bastante saudade).

Será possível prescindirmos de uma orientação ideológica?

Certamente que tais comunidades podem ser conduzidas – como ocorre geralmente – por um elemento (Real) que, em vez de “tirar o pai da forca”, suplante o Pai da Horda e exija nossa total submissão acrítica. Pois “quando o desejo de saber do aluno conflita com o desejo do mestre[4], espera-se que o aluno saiba, anulando o que poderia verdadeiramente sustentar o desejo do aluno”.

Afirmar que a (id)EOLOGIA é a “verdade recalcada” nos discursos significa pleitear uma lógica da atemporalidade para os seres falantes: a humanidade, então, não vive por completo no tempo presente.

 

 A ANATOMIA DA PALAVRA

O bicho não era um cão,
não era um gato,
não era um rato

O bicho, meu deus, era um homem

– Manoel Bandeira, “O Bicho”

 

Os ideólogos franceses do tempo da origem deste significante foram partidários de Napoleão, quem consideravam um liberal continuador dos ideais da Revolução. No entanto, não demoraria para perceberem, decepcionados, que ele era um restaurador do Velho Regime.

Em represália, nos decretos que fundaram a Nova Universidade Francesa, baniu esses “tenebrosos metafísicos” que haviam sido seus ministros (caluniosa acusação, posto que eles se opunham à metafísica). Em 1812, declarou: “Todas as desgraças que afligem nossa Bela França devem ser atribuídas à ideologia!”

Um pouco antes, em 2 de outubro de 1808, durante uma conversação com Goethe, Napoleão – o difusor das bibliotecas – disse que, mais além do destino trágico grego, está a mão (ideológica?) do homem. “A política é o destino”, afirmou. Na psicanálise, essa sobredeterminação foi tomada de empréstimo tanto por Freud quanto por Lacan.

Parece-me que muitos incorporaram tal “desígnio napoleônico” ao pé da letra, defendendo, convictos, que nossa ideologia (seja ela qual for) será sempre “libertária”. Todo “movimento”, mesmo que exija a “intervenção militar”, é fundamentado em semelhante ideal.

Posto que, na pós-modernidade, perdemos a verdade sobre o ser na natureza do gênero, assim como as certezas morais e cognitivas transmitidas pela tradição, há de prevalecer o ódio extraído da palavra dissecada em sua mais mortífera anatomia. “Pois onde o amor desperta – diz o Dr. Fausto – morre o eu, o déspota das profundezas”. E este déspota ressuscitou![5]

 

CAÇA ÀS BRUXAS!

– Senhor, é preciso que eu vá, também, ao abismo?

Levantou a mão Ele, absorto pela vida, e disse:
“Não joguem fora o que não caiu!”

– Victor Hugo, “O fim de Satã”

 

Em 7 de novembro, às 9h, congregaram-se católicos e evangélicos fanáticos (portanto, psicopáticos) à entrada do Sesc Pompeia, Rua Clélia 93, em São Paulo. O motivo era um “ato de repúdio à Maior Propagadora da Ideologia de Gênero”, a filósofa e professora da Universidade da Califórnia, em Berkeley, Judith Butler. O modus operandi, além de gritarem “NÃO!” à realização da conferência, consistia em queimá-la em efígie, ali mesmo, representando uma bruxa.

Por fim, ela também acabou sendo hostilizada – e até agredida fisicamente – no aeroporto quando deixava o País. Chama-me a atenção que as autoridades não tenham previsto esse acontecimento. O Brasil, definitivamente, tornou-se um país perigoso de ir e vir.

Ignorado pela grande maioria o teor da palestra (sobre os fins da democracia), a palestrante foi acusada de propagar um termo que foi criado, na verdade, por Joseph Ratzinger, em 1997: “ideologia de gênero”. Ele se tornaria o papa Bento 16, cujo afastamento ficou mal-dito pela igreja.

Em 2016, o argentino Jorge Scala lançou um livro intitulado “La ideologia de Genero”, pela editora católica Katechesis, porém a história parece repetir-se de modo napoleônico!

Liberdade não é (nunca é) a liberdade de fazer o mal.
— Judith Butler

Na realidade, Judith publicou, em 1989, um livro intitulado “Gender Trouble”, lançado em português como “Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade”, pela Civilização Brasileira, no qual propõe o “caráter perfomativo do gênero”. Essa é a teoria de Butler, com a qual podemos concordar ou discordar, levando em consideração o que ela afirma – em nota posterior ao episódio desastroso do Brasil – “liberdade não é (nunca é) a liberdade de fazer o mal”. E acrescenta:

 

Uma ideologia é entendida como um ponto de vista que é tanto ilusório quanto dogmático, algo que ‘tomou conta’ do pensamento das pessoas de uma maneira acrítica.

Um dos grandes opositores mundiais e religiosos da “Ideologia de Gênero” é o (monsenhor) “psicanalista” Tonny Anatrella. Em 1995, e a pedido do meu querido amigo filósofo Dion Davi Macedo (in memorian), eu escrevi uma resenha crítica sobre o seu livro “O amor e o preservativo”, no qual o autor propunha o “celibato” homoerótico como único recurso para evitar a disseminação da “peste gay”. Essa resenha nunca foi publicada e, por fim, se perdeu materialmente. Mas continua em mim.

Na Santa Sé, Anatrella havia se tornado orientador de diversos dicastérios, um guardião da ortodoxia. Entretanto, já entre 2005 e 2006, surgiram as primeiras denúncias sobre abusos e torturas sexuais às quais submetia seus “analisantes” (geralmente, jovens seminaristas) com o objetivo de curá-los da homossexualidade. Mais um torturador protegido pela igreja.

Dentre inúmeras publicações, em 2011, ele lançou “Depois de Marx veio o gênero” no Avvenire, um jornal ligado à Conferência Episcopal Italiana, em que afirmava que “as pessoas são iguais em dignidade, porém as suas escolhas, os seus estilos de vida, não têm objetivamente o mesmo valor”. E concluía: “não há nada de discriminatório em sublinhar que somente um homem e uma mulher formam um casal, se casam, vivem juntos, adotam e educam os filhos no interesse do bem comum e no dos filhos. São os mais capazes de exprimir a alteridade sexual, o casal e a família, célula da sociedade”. Contrariando determinação da Pontifícia Comissão para a Tutela dos Menores, instituída em 2014 pelo papa Jorge Bergoglio (o papa Francisco), o monsenhor teria afirmado, em curso de formação de novos bispos, que, para a Igreja, os bispos não têm obrigação de denunciar os abusos sexuais por parte de elementos do clero.[6]

“Psicanalistas” defendendo a perspectiva (medonha) de que as crianças “desejam” ser vítimas de violência sexual?

 

MARX E, DEPOIS, O GÊNERO

Se há um sujeito do significante,
é para submetê-lo à lei deste.

– Derrida

 

No dia 10 de março de 1909, aconteceu um debate sobre a psicologia do marxismo nas famosas reuniões psicanalíticas das quartas-feiras. Nessa ocasião, foi Adler que apresentou e defendeu a postulação, não compartilhada pelos demais presentes, tampouco por Freud, de que haveria uma estreita harmonia entre a teoria da luta de classes e a doutrina das pulsões.[7]

Freud, no final, em 1939, referindo-se ao marxismo da Rússia Soviética, disse que os bolcheviques haviam sido submetidos a uma cruel compulsão que lhes arrebatou toda possibilidade de pensar livremente, sustentando sua discordância do autor do “protesto masculino”.

Na época da ruptura, ele criticou o afastamento de seus seguidores, considerando a postura deles “mais ideológica do que científica”.

Por fim, em 1921, estabeleceu uma comparação entre o laço socialista e o religioso: ambos seriam ideais considerados ilusão de totalização egoica projetada no mundo.

Marx conservará o significado napoleônico do termo: o ideólogo é aquele que inverte as relações entre as ideias e o real. Digamos que é aquele que “mete os pés pelas mãos”.

A verdade é a interpretação que venceu a luta.
— Márcio L. G. Bandeira

Numa rica construção que transforma este texto numa colcha de retalhos (que maravilha é podermos construir solidariamente, em vez de competir narcisicamente pelo saber!), Márcio Leopoldo Gomes Bandeira, amigo historiador, acrescenta: “Marx pressupõe a separação entre mundo ideal e real. Ideologia seria a inversão desses valores. Mas não há ideal. Todo discurso é discurso de poder e, portanto, ideológico. Logo, se tudo é ideologia, a ideologia não existe. Não há verdade intacta possível de ser desvelada por um discurso científico capaz de desnudá-la de toda vestimenta ideológica. A verdade é a interpretação que venceu a luta, é o discurso do vencedor. Em vez de buscar o graal da verdade, deveríamos analisar o que faz a força de um discurso verdadeiro e quais seus efeitos na vida. Aumenta ou diminui nossa potência de vida? Uma analítica de poder”.[8]

 

ALÉTHEIA E HOMOFOBIA

Dor

Sonhei que eu estendia a mão
para uma lenha e, de repente, ela ardia

 E também a estendia
à procura de teu corpo, que tremia

 Eu estendia a mão
para alcançar o amor,
mas seu tremor,
inflamado
em rubores e calor,
talvez sem ter a intenção
de fazê-lo,
me queimou

– Arnaldo Domínguez,
20 de novembro de 2017

 

Alétheia era, para os antigos gregos, a verdade absoluta, sagrada e, em Heidegger, representou a tentativa de compreensão da verdade. Para a “Operação Lava Jato”, da Polícia Federal brasileira, tendo como alvo o governo do PT e o ex-presidente Lula, a 24ª fase, denominada “Alétheia”, talvez, significasse, outra vez, a passagem das almas dos mortos pelas águas do Rio Léthe, lugar onde deveriam abandonar suas memórias pregressas, só que, neste caso atual, no sentido inverso: a volta dos mortos vivos!

Digo assim, com ironia, porque aqui tudo acaba por tornar-se verdadeiro e, ao mesmo tempo, ficcional. Então, cabe interrogar: quando a verdade habitar o campo da ficção, tornar-se-á verdadeira ou fictícia?

Quando o ex-técnico da CIA, Edward Snowden, revelou o maior escândalo de espionagem nos Estados Unidos, desde um bunker na Rússia, 30 metros debaixo da terra, com sua rede cibernética que penetra na vida privada de todos, ele declarou: “Não me considero um herói já que atuei em benefício próprio. Não quero viver em um mundo no qual não há vida privada, isso é tudo”.[9]

Lógica semelhante terá movido Julian Assange, jornalista, escritor e ciberativista australiano refugiado na Embaixada do Equador em Londres, quem, por meio do Wikileaks, também fez denúncias sobre o vazamento de informações ultrassecretas?

Será que a ideologia está sempre acima da ética?

E à Operação Lava-Jato, no Brasil, que fez pública a linguagem vulgar e caseira do ex-presidente Lula e provocou o impeachment da então presidenta eleita? Perante esses sintomas sociais, eu havia (me) perguntado, sem resposta: será que a ideologia está sempre acima da ética?

Afinal, não são os sintomas (sociais) que definem a estrutura clínica da cultura, senão a posição dos sujeitos perante a lei (castração) e, consequentemente, à ética (do desejo).

Implanta-se progressivamente mediante siglas, candidaturas, atos e ditos de extrema-direita, divulgados constantemente pela mídia e redes sociais, um (ante) projeto totalitário no País. Sabemos, por experiência própria, que tal projeto pode prosperar de modo inefável embora sua completude também seja impossível, mas não podemos desconsiderar a eficácia multiplicadora de seus aparatos ideológicos oficializados, mediante uma propaganda ostensiva, por exemplo, para sairmos do território partidário: a integridade das famílias está sendo ameaçada por aqueles que defendem a “ideologia de gênero”, dentre os quais, os LGBTs são os mais perigosos.

De acordo com o inconsciente estruturado como uma linguagem, em Lacan, o efeito da significação tem caráter retroativo e será produzido sempre na posterioridade. O processo radicalmente contingente de produção retroativa de significação, nós o podemos elucidar por meio do Grafo do Desejo.

Essa é a célula elementar do Grafo, na qual, desde uma intenção mítica pré-simbólica, o eixo da cadeia significante S-S’ é ultrapassado num ponto anterior, produzindo sobre o $ (sujeito dividido) uma “costura ideológica” cuja eficácia dependerá de ter seus vestígios apagados pela posteridade.

Assim, o sujeito promoverá um processo de interpelação dos indivíduos, como propunha Althusser.  Tal ponto de subjetivação da cadeia significante será fixado pela influência inaudita do Significante Mestre, transmissor dos ideais destacados: heterossexualidade, Deus, família, pátria etc.

A “costura ideológica” articulará essa transmissão com outros valores, tipo: liberdade, ética, justiça, paz, cidadão de bem etc. “Somente os livres desses pecados serão salvos!”. Enunciados que nortearão a lógica transferencial, ilusão necessária e paradoxal sem a qual não funcionaria a hipnose da “verdade”.

 

 

Essa ilusão é transmitida pela “Voz”, resto objetal rejeitado pela operação de costura ideológica e que aponta para o Eu Ideal [i(a)], local da identificação imaginária (alienação). Identificação destinada a um certo olhar do Outro: “Jesus te ama!”.

 

 

A identificação simbólica [I(A)], Ideal do Eu, é onde nos identificamos com algum traço significante do Grande Outro da ordem simbólica – que representa o sujeito para um outro significante – e assumimos um nome ou uma missão que foi, em nós, depositada. Caso Hamlet!

No império da paixão pela ignorância, apoiamo-nos na ilusão de que o eu é autônomo e originário.

Esse traço identificatório não é, necessariamente, uma insígnia de prestígio, mas é a que faz com que os obsessivos se sintam, frequentemente, uma farsa, pois é ali  que se instaura o panóptico de onde somos observados para avaliar-nos dignos de amor (próprio), e daqui se transmite a função ideológica social.

No império da paixão pela ignorância, apoiamo-nos na ilusão de que o eu é autônomo e originário (eu nasci assim: síndrome de Gabriela, cravo e canela), desconsiderando a dependência radical que temos do Outro.

Entre o eu (m) e o Ideal do eu [i(a)] se estabelece o Estádio do Espelho: eu é Outro.

 

CONCLUSÕES

Segundo Freud (1930), os quatro modos de relacionamento (governar, educar, analisar e fazer desejar), que também representam quatro fontes de sofrimento, são impossíveis. Lacan toma os modos de uso da linguagem como modalidades de laço social e as distribui num quadrípode:

Agente -> Outro

Verdade // Produção

E os discursos provenientes dessas modalidades (Mestre, Universitário, Histérica e Analista) terão diferentes perspectivas ideológicas. O Mestre encontrará sua forma contemporânea no quinto discurso: do Capitalista. Para este último, não há laço social, pois não existe vínculo entre ele e o proletário, tal como o atual governo brasileiro consegue exemplificar com tanta clareza (sem véu).

Chamaremos “Analista” aquela posição discursiva que renuncia a todo discurso de dominação.

O Universitário continua na função de alicerçar a ciência, respondendo à exigência “sadeana”: “mais um esforço!”. Saber sempre mais!

A histérica, cujo sintoma demanda interpretação (decifra-me ou “me” devoro), tem sua verdade no objeto “a” que teria de ser para, por fim, encontrar seu lugar no desejo do Outro.

Chamaremos “Analista” aquela posição discursiva que renuncia a todo discurso de dominação.

A roupa (semblante ideológico) que veste cada posição discursiva é costurada pela “verdade” que a causa. É uma elaboração secundária que encobre o sentido mediante o disfarce formal metafórico. Bouhours definiu assim: “as metáforas são véus transparentes que deixam ver o que encobrem, os disfarces sob os quais se reconhece a pessoa mascarada”.

A ideologia está alienada à verdade inconsciente que é enigmática. Por isso, ao obedecer ao Discurso do Mestre, será sempre autoritária e responsável por lógicas ambivalentes e especulares tais quais as que prevalecem em nossos atuais debates monologais, verdadeiros solipsismos cheios de si.

Nesse sentido, ela se apresenta como um destino: não é a harmonia e a complementariedade democrática familiar que são impossíveis, sobretudo num universo tão totalitário e machista como o nosso. A desordem é produzida pelos defensores da “ideologia de gênero” que ameaçam, como um corpo estranho (objeto fetiche), o imaculado corpo familiar (visão corporativista e perversa). Eliminar os LGBTs restauraria a ordem e permitiria instaurar a fantasia ideológica fundamental sob ameaça.

Para encerrar, inspirado no proposto por Zizek: para realizarmos uma crítica ideológica efetiva, temos de fazer uma leitura sintomal, desconstruindo os significantes flutuantes mas, também, afetarmos o núcleo de gozo pré-ideológico, estruturado na fantasia totalitária desses discursos cujo “excesso é o derradeiro esteio da ideologia”.

Teremos a generosidade[10] de mudar o destino? O único jeito é conseguirmos levar em consideração a alteridade. Um novo amor: pelo outro. Certamente que não por todos os outros, já que muitos não têm nada de amável, sobretudo aqueles que apostam na ideia de que “a política é uma prostituta”.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Allouch, Jean. Contra la eternidade. Buenos Aires: Ediciones Literales, 2009.
Chauí, Marilena. O que é ideologia. São Paulo: Editora Brasiliense, 1994.
Derrida, Jacques. El concepto de verdade em Lacan. Homo Sapiens, Argentina, 1977. Revista Poétique, nº 21, Paris, 1975.
Kehl, Maria Rita. A anatomia e seu destino. Folha de São Paulo, Caderno Mais. 25-03-2001.
Lacan, Jacques. Seminário 17. O Avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992.
Lajonquière, Leandro de. (PSICO) pedagogia, psicanálise e educação. Uma aula introdutória. Estilos Clin. Vol. 3, nº 5, São Paulo, 1998.
Plut, Sebastián. Psicoanálisis del discurso político. Buenos Aires: Lugar Editorial, 2011.
Soler, Colette. Finales de análisis. Buenos Aires: Manantial, 1988.
Zizek, Slavoj. Eles não sabem o que fazem – O sublime objeto da ideologia. Rio de Janeio: Jorge Zahar Editor, 1989.

 

NOTAS

[1] Alejando del Carril publicou um texto no qual categoriza os eleitores de “Cambiemos”, mediante o relato de dois casos clínicos, como “Militantes do sadomasoquismo anal”. Também afirma que esses eleitores teriam sido violentados na infância e que as crianças “desejam” esse tipo de abuso e de violência. Buenos Aires, agosto de 2017. Contribuição de Betty Kaminsky, em Rosário, Santa Fé.

[2] Designação sugerida por Cézar Siqueira para nomear esse nosso debate.

[3] Comunidade promove a ilusão de que, finalmente, construiremos uma “unidade comum”, tipo PCC: um por todos e todos por um!

[4] Mannoni, Maud. “A educação impossível” (1973).

[5] Conversando com minha amiga psicanalista Silvia Marina M. Paiva, ela afirmou: “Discurso dogmático é sempre autoritário ao meu ver”; “Aí, tem se perdido a psicanálise”; e, por fim, “A psicanálise não morre, morrem os psicanalistas quando deixam de questionar para impor”.

[6] Caso Anatrella e o silêncio dos “defensores da família”, 4 de novembro de 2017. O que acontece quando um expoente da cruzada antigênero se envolve em escândalos sexuais? – Rogério Diniz Junqueira.

[7] Numberg, H. e Federn, C. – Atas da Sociedade Psicanalítica de Viena. T.II, ED. Nova Visão, 1908-1909.

[8] Assim: “Nos anos de 1842 e 1843, como redator da Gazeta Renana (Rheinische Zeitung), vi-me pela primeira vez em apuros por ter que tomar parte na discussão sobre os chamados interesses materiais. As deliberações do Parlamento renano sobre o roubo de madeira e parcelamento da propriedade fundiária, a polêmica oficial que o Sr. Von Schaper, então governador da província renana, abriu com a Gazeta Renana sobre a situação dos camponeses do vale do Mosela, e finalmente os debates sobre o livre-comércio e proteção aduaneira, deram-me os primeiros motivos para ocupar-me de questões econômicas”, Karl Marx.

[9] O Slogan deste mundo pós-moderno é “seja você mesmo!”. O sujeito, capturado pelas malhas ideológicas, lutará para se tornar aquilo que “já era antes” para ser amado.

[10] Em Descartes, o termo “generosidade” significa a firme resolução de ser mestre de mim mesmo e de minhas ações e de usar corretamente esse domínio. Ou seja, levando em conta a alteridade. Assim diz, de memória, Colette Soler, em Finales de Análisis.

[i] Debate “(id)EOLOGIA: O INCONSCIENTE DA POLÍTICA?”, organizado pelo NAPSI (Núcleo de Atendimento em Psicanálise), em 08 de dezembro de 2017, no ESPAÇO REVISTA CULT.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Arnaldo Domínguez de Oliveira

Arnaldo Domínguez de Oliveira

Arnaldo Domínguez de Oliveira, psicanalista. Graduado em Ciências Médicas pela Universidad Nacional de Córdoba, pós-graduação em Geriatria pelo HCFMUSP e Gerontologia Social, Instituto Sedes Sapientiae. Psicanálise e Linguagem, Coggeae, PUC/SP. Fundador do Projeto Etcétera e Tal... Psicanálise e Sociedade, docente e coordenador do Curso de Formação em Psicanálise do CEP (Centro de Estudos Psicanalíticos), Conselheiro da Biblioteca "Dona Nélida" de Itaquaciara, Itapecerica da Serra.

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