SociedadeTeoria

Intolerância

“Não vemos Deus com os mesmos olhos”
–Descartes (dialogando com Pascal)[1]

O “eu” não toma algo que lhe aconteceu como algo não acontecido, disse Freud. Por mais intolerável que seja a experiência, sempre produzirá uma representação. Frente a tais acontecimentos ameaçadores da integridade, o “eu” se defenderá graças à condição protetora do amor. Tal amor, do período em que o bebê é “Sua Majestade”, representa o que podemos denominar “Egoísmo Primário”.

Algo fracassou na sociedade contemporânea, pois, agora, essa condição se postergou para um período tardio. Os falantes exigem plenos direitos, muitas vezes, em detrimento dos direitos dos demais. Este é o “Egoísmo Secundário”, doentio, sociopata do nosso tempo. Intolerante não só às diferenças culturais senão, também, ao outro, qualquer um que seja, a quem sempre degradará em seus insultos.

No Brasil, daquele cuja vida em sociedade era uma libertação do pavor de viver consigo mesmo, o altruísta “cordial” de Buarque de Holanda[2], teremos avançado para o sujeito que vive a experiência plena em seu próprio mundo de ostentação? Nesse caso, o outro – a alteridade – somente tem algum valor para a constatação da superioridade e do reconhecimento do sujeito ensimesmado em seu próprio egoísmo. E o “eu”, qual uma exceção, toma algo não acontecido como algo que aconteceu, o que lhe outorga o direito de fazer o mal.

 

EXTREMISTAS BANALIDADES

Há alguns anos, dirigi uma atividade denominada “hora clínica” no Centro de Estudos Psicanalíticos de São Paulo (CEP) e cheguei à sala no momento em que a turma distribuía pedaços de bolo de aniversário. Eu também ganhei e parabenizei o homenageado.

O propósito desse dispositivo é o treinamento da escuta psicanalítica aplicada a um assunto apresentado, espontaneamente, por qualquer participante. Na ocasião, dois temas resultavam óbvios e se impunham a nós todos: por um lado, os massacres dos atentados terroristas na França e/ou na Síria, e, por outro, a tragédia socioambiental de Mariana, Minas Gerais, no Brasil. Conversaríamos sobre o Estado Islâmico e o contra-ataque ocidental e o petróleo; e/ou sobre as mineradoras que exploram o solo brasileiro com absoluto descaso com referência à geografia da destruição e à inoperância na fiscalização por parte dos governos brasileiros? O gozo capitalista!

Por serem temas comentados até a exaustão por tantos especialistas (todos e todas opinam com base no Discurso do Mestre) nas redes sociais, os participantes do Curso de Formação em Psicanálise decidiram se ocupar de uma banalidade escolhida propositalmente. Comentaram, já que estávamos em plena festa de aniversário, sobre o costume tão brasileiro de cantar “Com quem será, com quem será, com quem será que o(a) ‘pobrezinho(a)’ vai se casar?”. Certamente, a resposta – nunca dita – é: com mamãe ou com papai, de acordo com o Édipo freudiano. Depois de cantar, ainda é imposto outro interrogatório constrangedor:

– Para quem vai o primeiro pedaço do bolo?

Que significa algo semelhante ao que se pergunta na Argentina:

– ¿Quién te gusta más? ¿Papá o mamá?

Que pergunta! Merecedora de uma resposta à la Mafalda ou capaz de produzir um anacoreta ascético, no dizer freudiano, mais do que uma dementia praecox (“demência prematura”). A propósito do Caso Schreber, Freud diz: “(…) a introversão[3] da libido sexual conduz a um investimento do ‘eu’ mediante o qual possivelmente se produz o efeito da perda da realidade”.

Retorno da libido ao eu, eis aqui o esboço do conceito de narcisismo, sendo que aquilo que possui o mérito que falta ao eu para tornar-se Ideal, será amado. “Nesse sentido – acrescentará Freud no capítulo Introdução ao Narcisismo[4] -, não será uma perversão senão o complemento libidinal do egoísmo inerente à pulsão de autoconservação, da que justificadamente se atribui uma dose a todo ser vivo”. Logo, algo intimamente ligado às pulsões egoicas. O filho e/ou a filha serão amados nessa função de realizadores(as) do Ideal paterno e/ou materno, um lugar chamado fálico.

Por meio desse tema, o grupo não conseguiu fugir do assunto que prevalece: o extremismo! Que seria o complemento libidinal do egoísmo? Pergunto-me agora. Porque não há dúvida de que esses costumes banais trazem, na Outra Cena (a descoberta do inconsciente), o propósito descarado de fabricar “egoístas”.

“O que se projeta frente a si como Ideal é o substituto do narcisismo perdido da infância, na qual ele foi seu próprio Ideal”, diz Freud.[5]

 

O AMOR EGOÍSTA

Para La Rochefoucauld, falecido em 1680, cada ação do homem estaria determinada pelo amor a si mesmo, um amor egoísta. E a palavra “egoísmo” nasceu na França no final do século XVII[6], inventada pelo “Le Grand Arnauld”[7] (“Les Messieurs de Port-Royal”, os jansenistas). Ele abandonou a prática de falar de si mesmo na primeira pessoa em seus escritos. A enciclopédia francesa diz: “Para marcar que rejeitavam esse emprego, o fizeram ridículo sob o nome de egoísmo, adotado posteriormente em nossa língua…”.

Gay le Gaufey escreveu: “Parece normal que o século do triunfo cartesiano do ego fosse também o da invenção e da promoção do egoísmo, doença própria desse ego”.

Adotada um século depois, na Inglaterra, como um “chique francês”, o mais famoso dos egoístas (egotism) britânicos foi o nosso conhecido Oscar Wilde.

O Ego freudiano se aproxima do clássico cartesiano que se confunde com a consciência. Sua função é diferenciar o (próprio) proveniente da percepção do proveniente dos traços mnêmicos[8], sítio das representações, incluídas as chamadas “intoleráveis”, de tal modo que encontre o objeto que produziu a primeira experiência de satisfação.

 

NARCISISMO OU “NARCINISMO”?

Na atualidade, ao menos no Brasil, parece-me que todos adotaram a impossibilidade de falar na primeira pessoa. Nas análises, é muito comum que, ao se referirem a um ato próprio, digam “você”. Isso será um modus operandi para não terem de se responsabilizar pelos atos gozosos?

Se assim for, no reino cínico, também, tornamo-nos presas fáceis de tudo o que nos é oferecido para gozar. Nisso residirá a docilidade acrítica do consumismo desenfreado e a lógica do Primeiro Comando da Capital (PCC) que nos atravessa? Um por todos e todos por Um (expectativa de anular o Outro). Gozo já, pago quando puder.

Logo, tornamo-nos adictos (a-dictos, aqueles que não dizem)!

Dufour, numa conferência na Colômbia, afirmou: “Os sujeitos pós-modernos são aprisionados em seu próprio egoísmo. (…) Passamos da submissão simbólica à submissão real”.

Por fim, somos “narcínicos”. E o resultado disso já se faz sentir nos desastres climáticos, na caixa d’água vazia, na violência atroz de cada dia e na ameaça do apocalipse global. Mas ainda não atingimos o “salve-se quem puder”, eu acredito.

 


[1] Jean-Claude Brisville – O encontro de Descartes com o jovem Pascal – Estud. av. v.5 n.11 São Paulo jan./abr. 1991.

[2] Buarque de Holanda, S. – Raízes do Brasil – José Olympio ed., RJ. 24 ed., 1992.

[3] Jung.

[4] Do volume XIV de 1914, intitulado “Sobre o narcisismo: uma introdução”.

[5] Freud, S. Narcisismo, uma introdução. Obras Completas, 1914.

[6] Gay le Gaufey – “La imagen de uno mismo” – En El Margen, Revista de Psicoanálisis.

[7] Se os senhores de Port-Royal submetiam tudo à graça em outros campos, no ramo das ciências humanas, eram racionais. Arnauld desenvolveu um ramo do cartesianismo ao qual o próprio Descartes não se havia dedicado – o estudo e a análise da linguagem em geral, partindo da hipótese de ser ela de natureza racional. Esse ramo de estudo foi implantado e naturalizado em Port-Royal, cujo fruto é a Grammaire Générale et Raisonnée.

[8] O aparelho psíquico proposto por Freud, no capítulo VII da Interpretação dos Sonhos, está composto por um polo perceptivo, os traços mnêmicos e o polo motor. A função do eu (freudiano) consiste em diferenciar o estímulo proveniente do polo perceptivo do que provem dos traços mnêmicos (das representações).

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Arnaldo Domínguez de Oliveira

Arnaldo Domínguez de Oliveira

Arnaldo Domínguez de Oliveira, psicanalista. Graduado em Ciências Médicas pela Universidad Nacional de Córdoba, pós-graduação em Geriatria pelo HCFMUSP e Gerontologia Social, Instituto Sedes Sapientiae. Psicanálise e Linguagem, Coggeae, PUC/SP. Fundador do Projeto Etcétera e Tal... Psicanálise e Sociedade, docente e coordenador do Curso de Formação em Psicanálise do CEP (Centro de Estudos Psicanalíticos), Conselheiro da Biblioteca "Dona Nélida" de Itaquaciara, Itapecerica da Serra.

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