Filosofia

Medo do medo

Decido trazer o trecho de uma música, composta pela cantora portuguesa Maria Capaz, vocalista de uma banda de Rap chamada Capicuia (palavra de origem catalã que significa cabeça e cauda).

Quando ouvi essa música, chamou-me a atenção o fato de alguém estar tão distante geograficamente, filha de uma cultura também muito distante da nossa, falando do medo como algo único, universal, quase como uma entidade.


“Medo da doença, das agulhas e dos hospitais, medo de abusar, de ser chato e de pedir demais, de não sermos normais, de sermos poucos, medo dos roubos dos outros e de sermos loucos, medo da rotina e da responsabilidade, medo de ficar para tia e medo da idade, com isto compro mais cremes e ponho um alarme, com isto passo mais cheques e adormeço mais tarde, se não tomar a pílula, se não ligar pra família, se não tiver um gorila à porta de vigília, compro uma arma, agarro a mala, fecho o condomínio, olho por cima do ombro, defendo o meu
domínio, protejo a propriedade que é privada e invade-me a vontade de por grade em volta da realidade, do país e da cidade, do meu corpo e identidade, da casa e da sociedade, da família e da cara-metade…eu tenho  medo… nós temos tanto medo… O medo paga a farmácia, aceita a vigilância, o medo paga à máfia pela segurança, o medo teme de tudo por isso paga o seguro, por isso constrói o muro e mantém a distância! Enquanto isso, eles têm medo de que não tenhamos medo.”

Esse medo generalizado, globalizado, que transpõe barreiras, fronteiras e línguas, aparece na obra de Zygmunt Bauman como “medo derivado”, que orienta o nosso comportamento, quer haja ou não uma ameaça. É um rastro de experiência passada, um resquício que sobrevive ao encontro e se torna um fator importante na modelagem da conduta humana.

Na psicanálise inglesa, Melaine Klein postulou que, nos primórdios da vida, o psiquismo organiza suas experiências de prazer e desprazer polarizando ao máximo a distinção entre ambas, atribuindo respectivamente um objeto bom – no caso, a mãe capaz de amar e de cuidar – e um objeto terrivelmente perseguidor – a mãe que frustra e castiga. Podemos pensar que, a partir daí, nessa relação com o outro, no caso o sujeito-mãe, começa a ser instalado o medo de ser castigado.

  um outro teórico, o psicólogo Myra y López, defendeu que, tanto nas escala filogênica e ontogênica, a raiz dos desprazeres (medo) penetra no mais profundo de sua gênese. Ele, então, adotou a ideia de que basta existir um sistema nervoso capaz de difundir, em todos os âmbitos orgânicos, a ação excitante do nocivo, determinando assim a resposta global de imobilização, retração vital, morte aparente, retornando assim à vida vegetativa graças à liberação de adrenalina. Ou seja, as sensações de desprazer, que originariam o estado do medo, não dependeriam da relação com o outro.

Independentemente da distinção causal nas duas teorias, é comum a elas que existe a criação de uma conduta fugitiva ou reação de fuga, cujo propósito é o afastamento material do ser frente a situação de perigo.

…não fugimos porque temos medo, (…) fugimos para livrar-nos do medo.

Esta reação de fuga pressupõe a atuação dos músculos, de modo que o deslocamento corporal se produza no sentido oposto à direção do estímulo provocador do medo. A passagem da fuga para dentro de si à fuga para fora de si requer uma passagem da passividade à ativa defesa individual ante ao perigo. De fato, mesmo possuindo seguros mecanismos de fuga ante a agentes nocivos, aplicamos muitas vezes esses recursos não só diante da ação real e direta, mas também perante qualquer estímulo coincidente, associado, que atue como sinal antecipador do sofrimento. É assim que se origina não o medo frente ao dano, mas o medo ante o indício, o perigo. Dessa forma, podemos dizer que não fugimos porque temos medo, mas sim que fugimos para livrar-nos do medo; afinal, o mais horripilante dos medos é o de ser incapaz de evitar a condição de estar com medo ou de escapar dela. Já dizia Lenine: “medo que dá medo do medo que dá”.

O medo goza da possibilidade de utilizar, em sua ausência, sua própria sombra, por isso é muito mais assustador quando é difuso, disperso, indistinto, desvinculado, sem endereço nem motivos claros. Está aí a grande aflição e tenebrosidade da síndrome do pânico. É exatamente isso o que ouvimos nos relatos de quem sofreu ou sofre desse transtorno. Pergunto-me se esse estado não seria a resposta à nossa incapacidade de lidar com o medo de verdade.

É assim também que os mortos assustam mais que os vivos, que homens em guerra se lançam frente a muralhas de fogo e retrocedem assustados perante a suspeita de um inimigo tênue e invisível. O que não existe oprime mais do que o que existe.

Apesar disso, seria injusto negar a existência do que existe, no sentido literal da palavra, pois a verdade é que existe na imaginação, ou seja, criado por quem sofre, e justamente por isso não lhe pode fugir, pois seria necessário fugir de si próprio para conseguir safar-se de tal ameaça.

O MEDO IMAGINÁRIO

A grande vantagem, então, de se estar diante de um objeto mau, perigoso, é que nenhuma dúvida se instala quanto ao que se deve fazer com ele; só resta destruir e aniquilar impiedosamente o inimigo e, nesse lugar, cabe qualquer coisa: animal, pessoa, status social, raça, crença política etc.

Citando Bauman novamente, “medo é o nome que damos justamente às nossas incertezas, nossa ignorância de ameaça e do que deve ser feito, do que pode e o que não pode. Medo também é outro nome que damos à nossa indefensabilidade”.

Visto e experimentado tamanho desconforto perante essas incertezas, é de se entender por que damos nomes aos nossos medos. Dando nomes, endereços e razões, conseguimos nos proteger e aliviar o tal desconforto. Por exemplo: se tenho medo de ladrão, blindo minha casa e meu carro; se tenho medo de engordar, vou pra academia; se tenho medo de envelhecer, simplesmente não envelheço; se tenho medo de “ficar para titia”, caso-me com qualquer um. E quando a música diz “eles tem medo que não tenhamos medo”, fica clara a ideia de que com medo – esses medos nomeáveis – gastamos mais, fazemos mais seguros, nos protegemos, ou seja, consumimos.

Viver em contato, presos a esses medos derivados, globalizados, significa um ensaio diário de desaparecimento e morte. Morte do sujeito, da individualidade, da diferença, da subjetividade que compõe e sustenta cada um de nós. Para onde foram ou o  que acontece com os nossos medos genuínos?

Pra onde foi aquele sonho que foi abandonado, por medo de não dar certo? E aquela viagem que não foi feita, aquela palavra que não foi dita, aquele beijo que não foi roubado, e aquele abraço que não foi pedido? Entre tantos outros medos, que o vidro não blinda e seguro não protege.

A psicanálise coloca o analista lado a lado com o paciente, para que este se encoraje a se por frente a frente com os medos mais ilegíveis, inauditos, inomináveis e tenebrosos. E, por mais doloroso que isso possa ser, é uma aposta contra esse ensaio diário para a morte.

Compartilhe:
Fernanda Miranda

Fernanda Miranda

Psicanalista, educadora física e naturopata. Atende adultos e adolescentes em Pinheiros, São Paulo.

Artigo anterior

O sofrimento no trabalho

Próximo artigo

No consultório de Lacan

Nenhum comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *