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O amor ao ódio

“A natureza humana não é uma máquina para ser construída segundo um modelo, e para se pôr a fazer o trabalho que lhe é estabelecido, mas sim uma árvore que precisa de crescer e de se desenvolver em todos os aspectos, de acordo com tendências das forças internas que fazem dela um ser vivo” – John Stuart Mill, A Liberdade, 1858.

Decidi falar sobre os discursos de ódio tão presentes atualmente, particularmente nas mídias sociais. Seria fácil, então, utilizar referências extraídas do universo cinematográfico, que dialoga tão bem com a psicanálise, do gênero do horror, talvez não por acaso gênero que apresenta expansão nos últimos anos, notadamente com temas de zumbis.

Mas fazer uso desse gênero, por outro lado, me pareceu justamente ir na contramão daquilo que desejo destacar com esse trabalho. E Freud e seu “O Humor”, texto de 1927, trazem a possibilidade de salvação quando ele pergunta:

Em que consiste então a postura humorística, mediante a qual a pessoa se recusa ao sofrimento, enfatiza a invencibilidade do Eu ante o mundo exterior, sustenta vitoriosamente o princípio do prazer – mas isso tudo sem abandonar o terreno da saúde psíquica, como outros procedimentos que têm a mesma intenção?

Esta pergunta, então, me abre a possibilidade de empregar esta cena de um filme do final da década de 80, uma produção norte-americana com as atrizes Bette Midler e Lily Tomlin, duas grandes comediantes:

Procurei observar e interpretar toda esta cena desde o início: o instante da saída solitária do privativo, em que não há percepção de algo além de si; o instante de surpresa e espanto quando da descoberta de que o outro não é um duplo (ou reflexo?) e que seus movimentos não correspondem aos meus; o momento da experimentação do outro, o repetido teste de realidade para nos certificarmos de que se trata de um outro diferente de mim, passando ainda, e principalmente, pelo momento em que aquele outro nos dá um apertão no nariz, ou tenta nos furar os olhos. Se há sucesso nessa passagem, se se pode suportar essas experimentações e testes, e furar a defesa, e não os olhos, então pode-se abrir espaço para a liberdade de um e de outro; ambos podem coexistir. Melhor ainda, podem conviver.

Mas, se regredirmos a cena até um determinado ponto, temos o instante em que a cena do filme se equipara às imagens que encontrei para simbolizar os discursos de ódio e que, do meu ponto de vista, representam o instante psíquico do sujeito em questão.

Quando se busca equilíbrio das relações de poder, não se encontra liberdade, muito ao contrário, encontra-se uma frágil – enganosa – estabilidade.
— Suart Mill

Este é o instante em que fracassa essa operação, e observo nos discursos de ódio a expressão desse fracasso, quando o sujeito permanece refém de aspectos de sua personalidade que o mantém em constante estado de ódio, medo e, por conseguinte, defesa. Então, o outro não passa de uma mancha, algo a ser limpo, destruído ou, na melhor das hipóteses, igualado em termos de relação idêntica de poder.

Não precisamos recorrer a Freud. Suart Mill já faz essa diferenciação em 1858, quando contrapõe poder à liberdade: quando se busca equilíbrio das relações de poder, não se encontra liberdade, muito ao contrário, encontra-se uma frágil – enganosa – estabilidade.

Isto me fez pensar em dois aspectos do discurso de ódio: do ponto de vista do sujeito que o profere e o do ponto de vista da sociedade afetada por ele. Do ponto de vista do sujeito, contei com alguns conceitos de Fairbairn, fazendo uma articulação com John Stuart Mill para os aspectos relacionados à sociedade.

 

DO PONTO DE VISTA DO SUJEITO E SUA PSIQUE

O discurso do ódio parece apresentar suas raízes em traços esquizoides, no sentido de uma defesa esquizoide. Ela, essa defesa, está em todos nós, posto que é ponto de passagem no caminho do desenvolvimento. Se alguns se fixam nessa modalidade de defesa, para aqueles que a ultrapassam sempre há restos que poderão ser ativados a depender das circunstâncias da vida.

Ela, a defesa, é representada a partir de alguns indicadores: a voracidade, o tomar sobre o dar, a relação de uso, a consideração do outro não como pessoa inteira, mas como um pedaço de algo que ou lhe serve ou deve ser eliminado ou, ainda, que lhe serve e por isso deve ser incorporado – sendo consequentemente eliminado – e impossibilitando a construção de uma relação.

Outro importante indicador: a idealização, no sentido de que as ideias do indivíduo são vistas como objeto supervalorizado em detrimento dos afetos. A arrogância aparece também e emprego a definição de Bion sobre a arrogância, como expressão da pulsão de morte, destruidora, assim como os demais aspectos mencionados.

Aqueles que dessa forma se apresentam mantém relações simplificadas – arrisco dizer primitivas – transformando pessoas em objetos de uso. São incapazes de integrar. Ou é uma coisa, ou é outra. Permanecem vítimas do ódio como destruição, incapazes do amor como criação e construção.

Na psique do sujeito que profere o discurso de ódio, o que se desenrola é uma grande tragédia caracterizada por um aprisionamento que não é necessariamente no ódio, mas num amor visto como destrutivo. Por uma inversão moral, o sujeito odeia para destruir pelo ódio, que é justificado, e não pelo amor. É, de fato, uma grande tragédia.

Essa fixação no modelo esquizoide de defesa traz importantes questões para a clínica, onde a função da relação analista-analisando adquire relevância fundamental: a partir dela é que se poderá estar em posição de ajudar o analisando a suportar a presença de um outro antes de avançar. Analista e analisando precisam ultrapassar juntos essa fixação. O analisando precisa do espaço para odiar e o analista precisa sobreviver.

 

DO PONTO DE VISTA DA SOCIEDADE

Observo os efeitos do discurso de ódio no meio social, dos quais o mais destrutivo parece-me ser o silenciar dos outros que, buscando permanecer em paz, ou protegidos, silenciam o debate. Como diz Mill, “o preço pago por esse tipo de apaziguamento intelectual é o sacrifício de toda a coragem moral do espírito humano”.

Tais discursos produzem, naqueles que se possibilitam o pensar, o observar e o investigar uma atitude de reclusão. Saem de cena, intimidados pela agressividade avançada pelos discursos de ódio. Não iria tão longe a ponto de dizer que são “eliminados” em sua capacidade de expressão, mas o efeito é próximo a isso.

Para a sociedade, dado o agregado de sujeitos amparados nessa modalidade de defesa, bem como nos meios hoje disponíveis para a propagação e amplificação das comunicações, possibilitar essa abertura é questão de sobrevivência: do debate, das relações, dos intercâmbios, da vida enfim da sociedade.

A polarização é um dos efeitos dessa defesa que leva a uma soma de todos os medos e a um afastamento “ativado” dos dois lados. Ativado, pois o olhar está sempre atento a movimentos que despertem medo, como câmeras de monitoramento de segurança ativadas por movimento.

Há sempre o medo, a suspeita e todos os campos de força permanecem ativados. Não há descanso. É uma luta sem fim, posto que o sujeito se vê diante da ruína de sua idealização sem se ver capaz de reconstruir-se.

Seja do ponto de vista do psicanalista, seja do ponto de vista do cidadão, é preciso que possamos destravar essa armadilha psíquica para que ambos, sujeito e sociedade, possam promover o criar sobre o destruir. E, para retomar a epígrafe, proporcionar que os galhos das árvores voltem a crescer, se desenvolver e gerar frutos.

 

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Eduardo Amaral Lyra

Eduardo Amaral Lyra

Psicanalista. Atende adultos e adolescentes no bairro de Pinheiros, São Paulo.

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