O título vem como questionamento pois, além de minha causa psicanalítica, uma confusão lógica se faz. Inicio o que tenho a expor pelo fim: o que era para ser tido como consequência, se apresenta como um ponto de partida de um engodo.

Nadiá Paulo Ferreira fala sobre o amor como uma invenção humana para dar conta de uma falta fundamental no ser. Pois bem, essa “invenção”, suponho, vem a trazer sentido a uma falta Real. Se transpusermos o fato para uma ótica lacaniana, podemos afirmar que, pelo Simbólico, tentamos dar conta do Real.

Uma afirmação frequente emerge diante de tal construção: “mas eu sinto algo, tem sua parcela Real nisso que se chama amor”. Podemos inferir que sim. Mas o que seria?

Intuo que é a relação de objeto que temos com o Outro. Na pessoa que se destina o tal sentimento, há uma “materialização” do que seria a causa do Desejo. Mas essa “materialização” é parcial, o que acaba denunciando o Não-todo da coisa.

Vejo três saídas manifestas na atualidade para isso:

– A eterna denúncia e descontentamento relativo a falta no/do Outro;

– Uma invenção singular para o fato;

– Culpabilização da cultura e sociedade atual que nos acomete do mal-estar das relações “flutuantes”.

Na posição de Analista e Analisante, entendo que a “invenção” seja a mais satisfatória, dada que é a única em que um sujeito pode depositar algo que lhe é peculiar e único. Ao invés do “transcrito”, se passa para “a escrever”.

Compreendo a dificuldade, mas lhes oferto um velho dito: “Amar o trabalho e trabalhar o amor”.

Referências:

BAUMAN, Z. Amor líquido. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.

FERREIRA, N. P. A teoria do Amor: Jorge Zahar, 2004

FREUD, S.. Observações sobre o amor transferencial, (Edição Standard das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Vol. 12). Rio de Janeiro: Imago. (Originalmente publicado em 1915).

Michel Sumiyoshi

Michel Sumiyoshi

Psicanalista e Psicólogo. Atende adultos e adolescentes em Pinheiros, São Paulo.

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