Clínica

Afinal, o que há de errado com nossos filhos?

É sabido que as crianças passam por diversas fases de desenvolvimento, que implicam um árduo trabalho físico e psíquico aos nossos filhos. Atualmente, considerando a facilidade de informações vindas da internet, os pais, ao identificarem comportamentos infantis “suspeitos”, tomam uma entre duas atitudes: ou tratam de ignorar e minimizar o quanto possível aquela chamada “inadequação” dos filhos — geralmente reportada por outros círculos de convivência social da criança — ou tratam de buscar rapidamente a nomeação do problema dentro do aspecto médico, para saber em que síndrome a criança se encaixaria, qual o prognóstico, as melhores terapias e os medicamentos necessários.

Os dois cenários são compreensíveis e essa divisão é apenas didática, apenas para realçar que a ideia de que a “infância é a melhor fase da vida”, hoje com a atual cultura e mudanças nos conceitos de família, se mostra cada vez menos verdadeira.

Trata-se, assim, de eixos do desenvolvimento: o físico e o psíquico, cada um com suas particularidades, mas interligados. É mais fácil avaliar e mensurar o desenvolvimento físico infantil em suas variações: ausência de moléstia física, altura, peso, entre outras, do que o desenvolvimento psíquico para o qual poucos conseguem se atentar para variações mais sutis. Assim, a mãe ou pai, ao procurar o serviço psiquiátrico ou psicológico para os filhos, podem por si próprios avaliar que “algo” está errado, mas podem ainda partir do princípio de que foi uma observação externa — por exemplo, da escola — que os direcionou ao profissional, algumas vezes mencionando questões a respeito da criança que os pais, eventualmente, até desconhecem ou negam.

É bem aí entre esses dois aspectos de desenvolvimento que ocorrem trocas e rupturas importantes que afetam o corpo integral infantil, o qual, por estar em formação, experimenta-as não somente como acontecimento, mas como matéria prima para a formação do seu psiquismo. Assim, o novo/velho entendimento é que a esfera física e a mental se permeiam produzindo movimentos.

Winnicott, pediatra e psicanalista inglês, reforça em sua obra um aspecto importante a respeito do ambiente psico-físico que envolve a criança. Segundo ele, a criança tem uma dependência inicial completa de um ambiente favorável e adaptado para as suas necessidades, o que ainda lhe rende muito trabalho psíquico e físico, sem o qual há grandes possibilidades de fracasso na empreitada de amadurecimento do psiquismo infantil. Leia-se, inicialmente, ambiente favorável como sendo a mãe e primeiros cuidados na socialização primária e, posteriormente, a escola e demais círculos de convívio da criança na socialização secundária.

 

A FALHA AMBIENTAL

Na falha desse ambiente propício, adaptado e atento a esse invisível do desenvolvimento, surgem as enureses e encopreses em crianças que já estavam adaptadas às rotinas de higiene, problemas de ajustamento e violência dentro da própria casa com os irmãos e cuidadores ou na escola, problemas com a alimentação, crianças que param de brincar ou se retraem diante de outras, timidez excessiva, incapacidade de lidar com ordens, intolerância…

Os sintomas são inesgotáveis. O psicólogo ou psiquiatra são procurados com esse tipo de queixas e a maioria dos pais atribuem esses problemas ao externo, à escola, aos cuidadores ou a problemas médicos, como o enquadramento dos filhos em alguma síndrome de comportamento atípico. Pouco localizam sua participação no processo. Há uma angústia de querer saber o que fazer e, em alguns momentos, a quem culpar.

Cabe, assim, ao profissional envolver também a família ao abordar a criança. É o psicólogo/psicanalista que vai, ao tentar enxergar e avaliar a singularidade daquela criança, conversar com a família em busca de encontrar onde está a falha ambiental/situacional/sentimental que está causando aqueles conflitos na criança, tentando encontrar, junto com eles, o que pode ser feito para favorecer seu desenvolvimento, beneficiando-a com a possibilidade do amadurecimento emocional.

Há uma angústia de querer saber o que fazer e, em alguns momentos, a quem culpar.

No consultório, atendi uma criança de 4 anos com sintomas obsessivos, queixas alimentares e relacionais na escola, que desenhava uma figura estranha cheia de círculos. No decorrer do processo terapêutico e com a melhora do quadro psicológico, a figura foi interpretada junto com a criança de forma a entender que o desenho simbolizava, para ele, o corpo dos pais no momento em que tomavam banho juntos, o que favorecia surgimento de fantasias da criança quanto a diferenças anatômicas dos sexos. Os pais receberam a sugestão de uma mudança nas rotinas do banho, favorecendo brinquedos e brincadeiras, mas sem a exposição corporal. Essa intervenção trouxe alívio e melhorias na conduta da criança e no convívio familiar e escolar.

A criança é favorecida com a possibilidade de, ao se tornar adulta, conseguir se identificar com o social sem que isso lhe traga tantos sacrifícios e custos. É brincando, desenhando, modelando que a criança testa a sua interação com o mundo, percebendo que ele a antecede, que tem regras, que tem papéis e que ela pode os experimentar sem maiores danos em um lugar seguro.

É nessa proposta que a psicanálise infantil ouve, olha e avalia essa singularidade e ajuda os pais a respeito dos significados particulares e internos dos conflitos mais primários da criança.

Isso nunca é sem consequência para a revisitação dos pais ao seu próprio narcisismo e, a depender de como recebem essas notícias, podem ter eles mesmos a oportunidade de reavaliar sua própria singularidade e entender seu papel e alcance na constituição psíquica da criança, até então obscurecida apenas pelo cuidado físico. A ajuda não é pedagógica, é comunicativa.

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Sandra Rodrigues

Sandra Rodrigues

Sandra Rodrigues​
Psicóloga e Psicanalista com Pós Graduação em Psicologia Hospitalar pela PUC - São Paulo. Além de atendimentos clínicos atua como supervisora clínica e editora de conteúdo de páginas relacionadas aos temas de Psicanálise, Psicologia Infantil e Família. Atende crianças, adolescentes e adultos.

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