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O sofrimento no trabalho

No início do século passado, enquanto a psicanálise ainda era estruturada e apenas começava a ser disseminada no campo da saúde, a ampla aplicação da gerência científica no campo do trabalho gerava uma necessidade de se compreender melhor as relações entre trabalho e processos psíquicos. Com o intuito de racionalizar o trabalho e construir um saber orientado para a melhoria da produtividade, os psicólogos da época se apresentaram a serviço dos interesses capitalistas, construindo teorias e técnicas que satisfizessem as demandas da produtividade. 

De lá para cá, o papel do psicólogo nas instituições e a escuta do sofrimento no trabalho pelos profissionais em seus consultórios mudaram bastante. Contudo, ainda hoje, as marcas indeléveis dos princípios produtivos tayloristas persistem e têm exigido dos psicólogos e psicanalistas uma ampliação da compreensão dos fenômenos psíquicos no trabalho, convocando-os a desenvolverem teorias mais abrangentes e intervenções capazes de produzir transformações na vida do trabalhador e combater os efeitos alienantes do sistema capitalista.

Freud trata do trabalho, ao lado do amor, como um dos pilares da saúde psíquica. É uma atividade humana profundamente carregada de significação.

Falar de trabalhador é, pois, falar de todo homem: este ser social dotado de pulsões e linguagem, que transforma o mundo e é por ele transformado, e que atribui sentidos ao trabalho, tendo sua identidade constituída nele e por ele.

O espaço do trabalho é, por excelência, o campo privilegiado onde trocas materiais e afetivas com o outro são realizadas. E, se é pelo olhar do outro que constituímos nossa singularidade ao longo de toda a vida, o trabalho será “o mediador central da construção, do desenvolvimento, da complementação da identidade e da constituição da vida psíquica” (LANCMAN, 2008 apud BOUYER, 2010).

Assim, quando observamos os novos modelos de gestão do trabalho que foram criados  ao longo das últimas décadas, percebemos com facilidade como eles ocultam o eixo taylorista sobre o qual todo o curso do trabalho se deu e ainda se dá. Vemos nitidamente que a divisão hierárquica das tarefas, o controle das decisões, a não participação do trabalhador no processo produtivo, o ritmo acelerado, as relações profissionais desgastantes e a precarização do trabalho apenas se tornaram mais velados no mercado contemporâneo, camuflados nos discursos de enaltecimento da emancipação individual, da meritocracia, na promessa de crescimento e recompensa conforme a produtividade etc.

Uma vez que esse disfarce, denunciado no sofrimento no trabalho, se torna tão evidente nos dias de hoje, podemos fazer duas inferências: a primeira é que a maquiagem do taylorismo em discursos socialmente mais aceitáveis se faz necessária por conta das consequências que a exploração gera sobre o trabalhador, ou seja, tal modelo produz conflitos e precisa ser reorganizado de modo a diminuir o choque entre as expectativas de empregadores e empregados. A segunda é que essas consequências, claramente vivenciadas como sofrimento, demonstram a notável centralidade que o trabalho ocupa na saúde das pessoas. Afinal, o trabalho tem, especialmente em países emergentes como o Brasil, ligação direta com a sobrevivência e, muitas vezes, se limita a isso, com o agravamento da precarização.

Portanto, quando falamos em centralidade do trabalho na saúde, nos aproximamos da ideia dejouriana de que “o trabalho não é um objeto particular entre tantos outros, mas está colocado no centro da Psicologia, no mesmo nível que a sexualidade” (DEJOURS, 1996, p. 199). Ou seja, quando pensamos no bem-estar, na felicidade de sujeitos e grupos humanos, observamos nitidamente que não há neutralidade do trabalho, muito pelo contrário: ele toma lugar distinto, fundamental para a apreensão dos modos de subjetivação do homem.

TRABALHO E SUBJETIVIDADE

Se o trabalho é, assim, um elemento fundamental da existência humana, intrinsecamente ligado aos processos de subjetivação e capaz de criar satisfação e prazer ou sintomas que afetam a saúde, então a organização do trabalho regerá o tom desses processos.

E o que seria a organização do trabalho? Ela é compreendida como “a divisão do trabalho, incluindo a divisão das tarefas, a repartição, a definição das cadências, o modo operatório prescrito; e a divisão de homens, repartição de responsabilidades, hierarquia, comando, controle” (ABRAHÃO; TORRES, 2004).

Porém, a organização do trabalho não se dá de modo deliberado e participativo com os trabalhadores. Ela se estrutura de uma forma coercitiva, raramente oferecendo ao trabalhador a flexibilidade necessária para enfrentar a complexidade dos conflitos profissionais, aumentando seu sofrimento (que poderia existir em qualquer trabalho, mesmo o não profissional, mas que se torna ferino nas instituições capitalistas).

Essa organização do trabalho, assim estruturada, exige dos sujeitos estratégias defensivas de busca pelo equilíbrio interno e coletivo. Os conflitos não resolvidos decorrentes das relações com as demandas dessa organização do trabalho causam sofrimento, antepondo-se às cada vez mais esparsas vivências de prazer, realização, satisfação, gratificação que os sujeitos experimentam em suas jornadas profissionais (DEJOURS, 2004; ABRAHÃO; TORRES, 2004; BOUYER, 2010).

É, pois, em um território de conflitos nevrálgicos que cada sujeito terá que se haver com seu desejo e seu sofrimento, adotando estratégias de enfrentamento que lhe permitam a superação e transformação do trabalho em fonte de prazer

Freud, com a psicanálise, nos proporcionou não só uma teoria do psiquismo humano, mas também uma teoria da cultura e um método de investigação pela escuta do inconsciente. A partir do inconsciente, do psiquismo pulsional humano e sua compreensão social acerca do trabalho como função estruturante e meio de expressão do sujeito, podemos compreender melhor como a organização do trabalho capitalista constitui uma montagem perversa em que, de um lado, encontramos um Outro explorador, exercendo “modalidades de satisfação ávidas pelo domínio, ânsia do poder absoluto e caracterizadas pelo acúmulo, excesso e usufruto do outro” (MENEZES, 2012) e, de outro, o trabalhador enfrentando uma condição de desamparo com estratégias ora criativas, ora funestas, em que na maioria das vezes a sujeição toma o lugar da subjetivação e a vivência do prazer dá lugar à produção de sintomas.

A (des)regulação psíquica produzida pelo trabalho demanda uma análise crítica dos espaços de trabalho e seus sujeitos.

A confrontação do sujeito com a realidade do trabalho incorre, pois, em processos psíquicos complexos intra e intersubjetivos. A (des)regulação psíquica produzida pelo trabalho demanda uma análise crítica dos espaços de trabalho e seus sujeitos. A atividade de trabalho é um processo dialético em que, ao mesmo tempo que o sujeito trabalhador dá sentido ao que faz, diversas circunstâncias de trabalho interferem nas percepções que ele tem de toda a conjuntura do trabalho. As vivências de prazer e/ou sofrimento evidenciam cotidianamente essa compreensão.

A ESCUTA DO SOFRIMENTO NO TRABALHO

Ao pensarmos uma clínica do sofrimento no trabalho, portanto, devemos analisar as percepções dos trabalhadores e essas vivências de prazer e sofrimento sempre em paralelo a uma profunda observação das circunstâncias de organização do trabalho. Um olhar monista, que isole o sujeito e seu sofrimento de seu contexto de trabalho, não poderia dar conta uma escuta adequada. Tratar o sofrimento no trabalho demanda uma melhor compreensão da interação entre as dimensões subjetivas e objetivas resultantes nesse processo dialético.

O sofrimento é inerente ao trabalhar. Ele advém da angústia por que passa o trabalhador quando se depara com a distância inevitável daquilo que foi prescrito (normas, regras, manuais, etc.) e a situação real de trabalho. A vivência de sofrimento decorrente desse confronto com o real do trabalho pode ser criativa ou patogênica, dependendo do destino que o trabalhador for capaz de dar a ela. Nesse sentido, o psicólogo ou psicanalista possibilita abrir caminhos à inventividade e descoberta de recursos para lidar com os sintomas produzidos no e para o trabalho.

O tratamento do sofrimento no trabalho passa necessariamente, pois, por uma escuta e organização das queixas e análise minuciosa do contexto profissional, angústias, defesas e mobilizações subjetivas sob uma perspectiva de saúde condizente com a promoção de autonomia dos sujeitos.

REFERÊNCIAS

ABRAHÃO, J. I.; TORRES, C. C. (2004). Entre a organização do trabalho e o sofrimento: o papel da mediação da atividade. Prod. [online], v. 14 n.3, 67-76. ISSN 1980-5411.

BOUYER, G. C. (2010). Contribuição da Psicodinâmica do Trabalho para o debate: o mundo contemporâneo do trabalho e a saúde mental do trabalhador. Rev. bras. saúde ocup. v.35 n.122,  jul-dez. São Paulo.

DEJOURS, C. Sofrimento, prazer e trabalho. Em: Conferências Brasileiras: identidade, reconhecimento e transgressão no trabalho. São Paulo: FGV, 1999

DEJOURS, C. Subjetividade, trabalho e ação. Revista Produção. São Paulo, v. 14, n.3, p. 27-34, 2004.

MENEZES, L. S. Psicanálise e saúde do trabalhador: nos rastros da precarização do trabalho. São Paulo: Primavera Editorial, 2012.

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Cezar Siqueira

Cezar Siqueira

Psicólogo e Psicanalista, mestrando em Psicanálise pela Universidad John F. Kennedy, da Argentina. É MBA em Gestão Empresarial pela FGV e também graduado em Comunciação Social pela Universidade de São Paulo. Realiza treinamentos e consultorias em instituições públicas e privadas. Atende adultos e adolescentes em Pinheiros, São Paulo.

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