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PALAVRA NÃO DITA, PALAVRA MAL(-)DITA

Pensei em falar sobre a importância da palavra dita, nas suas possibilidades de ser palavra plena ou palavra vazia, mas não conseguia produzir nada a respeito, porque a palavra não dita era o que insistia em aparecer, e tive que me render a isso. Então comecei a pensar sobre o não dito… o indizível…o mal-dito.

Mais do que a palavra dita, o que é isso da palavra mal-dita, não dita, que nos determina, mas que antecede a própria fala?

Somos seres atravessados e constituídos pela linguagem, mas ela diz respeito a um discurso universal em que estamos situados desde antes do nascimento. E, pela condição que é própria da linguagem, esse mundo é marcado pela incerteza, pelo equívoco, pela falta.

Nossos signos de troca com o mundo estão fundamentalmente no olhar e na voz. Reconhecemo-nos e existimos nas palavras, roupas e invólucros em geral, olhares e afetos; mas também existimos nos silêncios… A palavra constituída não é  tudo: na linguagem cabe muito mais, existem mensagens secretas nos sonhos, nos silêncios, na corporalidade própria e na do Outro, no sentido e na desconstrução dos sentidos.

É nessa linguagem que se oculta a verdade do sujeito, e justo porque é a verdade, nunca é toda, é sempre meia verdade, e é sempre meio dita.

A narrativa organiza o mundo, mas o não dito não é narrado. Muitas vezes nos dá poucos indícios ou nenhuma notícia de sua existência. Nosso psiquismo não se dá muito bem com esses vazios, onde há o não dito. Fica uma lacuna que a fantasia se encarrega de preencher e, como sabemos, na fantasia cabe qualquer coisa. É aí que está o perigo de uma dor impossível de se elaborar, porque faz sentir, determina e constitui mas, estando fora do discurso, não se faz possível de elaboração.

A cegueira do olhar e o silenciar da voz: é disso que estou dizendo.

A narrativa aliena o sujeito, mas constitui e serve como um ponto de ancoragem que sustenta suas relações, suas transmissões geracionais e suas formas de estar no mundo. Se essa rede simbólica silencia, o sujeito precisa de construções protéticas que preencham esse espaço, precisa se ancorar para existir, para não reaparecer apenas nos atos e nos sintomas.

E lá, onde há a imposição do não dito, a palavra é negada. Por isso o corpo, o ato e a repetição se tornam um dizer calado.

O sujeito da linguagem precisa da palavra para existir. Se não tiver essa ferramenta, o sujeito só pode reaparecer no real do corpo e do ato, numa repetição mortífera do não dito e do indizível, que lhe produz efeitos e sobre o qual nada pode dizer. E lá, onde há a imposição do não dito, a palavra é negada. Por isso o corpo, o ato e a repetição se tornam um dizer calado.

O que estou tentando mostrar é que o mal dito ou o não dito acaba por ser expresso, afinal, por algo não elaborável, que determina e constitui, mas do qual nada se pode dizer.

Costumo diferenciar o não dito do indizível: o não dito é da ordem lacunar, espaço esvaziado de palavra, mas carregado de efeitos e significantes que são expressos fora da palavra, mas dentro da linguagem simbólica, em todo caso, como o sintoma neurótico, por exemplo. O indizível é ainda mais complicado, é de outra ordem. O indizível se mantém fora de qualquer representação psíquica, está direto no corpo e no ato, como as eclosões psicossomáticas, os acting outs e alguns transtornos alimentares.

O não dito pode ser decifrado, mas o indizível está fora dos signos, está no limite do formulado, nas imagens, ou antes, quando nem são imagens ainda.

O não dito é a presença evanescente no discurso e pode ser decifrado, mas só por aproximação. É uma conversa que não pode ser ouvida entre o sujeito e o grande Outro, mas que precisamos desvendar. Se um sujeito fala de si, ainda que a si mesmo ou ao analista, já se interroga sobre o seu próprio não dito e dá-lhe um sentido. Isso insere o não dito ao discurso e, portanto, o anula ou o reduz. E essa é a única saída: veicular a palavra que comporta a existência e a transmissão do grande Outro na construção de sua própria alteridade.

Na análise, o equívoco aparece e surpreende. Nesse espanto de ouvir o outro que diz em mim, surge a verdade do inconsciente do sujeito. E ela o liberta.

Essa é hora que o analista silencia, e esse nada a dizer do analista provoca, instiga e faz falar no analisando o dizer que estava calado e impedia o desejo.

O não dito se torna maldito quando o dito não apresenta o sentido; é mal dito no espaço de não sentido ou de recusa do sentido. Não se trata da falta que produz o desejo: é o espaço que impede o discurso e o desejo. Tudo porque o não dito comporta o tudo a dizer.

Mas há um não dito embutido no próprio não dito: ele finge que não está, mas se exibe e se mostra ao mesmo tempo sem que se perceba, anula alguns ditos e priva o sujeito da possibilidade de se expressar. Essa é a ambivalência que caracteriza a dupla mensagem que se localiza entre o dito e o não dito: há uma justaposição e, por ela, o não dito anula a palavra dita. Com uma cinética própria, o não dito se faz sempre mais determinante que a palavra.

O não dito se torna maldito quando o dito não apresenta o sentido.

Aí está a armadilha: quando há um não dito, acredita-se no dito, mas nunca totalmente. Sabe-se que é uma verdade inverídica, ou pelo menos incompleta. Mas, ao não se poder ver o que não está posto, a verdade oficializa a omissão e lhe dá legitimidade, deixando sem nome uma inquietação suspensa no ar.

Um psicanalista francês de quem eu gosto muito, Claude Oliveinstein, diz que “[o não dito] é a ponte entre o imaginário e o recalque, o terror e o desejo”. Neste sentido, no não dito pode estar o segredo do sujeito, o que há de mais íntimo. Mas ele precisa, por necessidade de pertencimento, também do não dito social. Aí está a verdadeira herança, transmitida no segredo, ao pé do ouvido, com a certeza da dúvida. Há uma intuição talvez, não mais do que isso.

O não dito é o sabido sem saber, por isso leva a calar e a sustentá-lo no silêncio, protegendo as relações consigo mesmo e com os outros, os pequenos e os grandes Outros, com o mundo e suas instituições. Ele funda e protege a vida do homem em sociedade, sempre pondo de reserva aquilo que não se enuncia, para justificar condutas e posições, em nome de uma suposta ressonância ética.

O não dito dá validade à omissão e a salva do lugar de mentira, usurpando o combinado de se dizer tudo.

Esconder o já sabido é o que há de comum nos não ditos, mas eles em si são individuais, múltiplos, com representações variáveis. Só deixa de sê-lo quando é expresso.

Mas o já dito ainda pode guardar-lhe um resto. Quase sempre há um resto silenciado, um enigma indecifrável.

O resto silenciado continua gerando seus efeitos, efeitos também não ditos, ou mal ditos, talvez.

 

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Silvia Marina de Melo Paiva

Silvia Marina de Melo Paiva

Psicóloga , psicanalista e analista institucional. Com experiência em atendimento clínico, supervisão e transmissão da psicanálise. Formação em psicossomática psicanalítica e especificidades da clínica da drogadependência. Membro do corpo docente do Curso de Formação em Psicanálise do Centro de Estudos Psicanalíticos e colaboradora em outros institutos de formação.

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