Não são poucas as inquietações que a questão da velhice traz à psicologia e à psicanálise, especialmente quando a ela soma-se o advento da demência. Desde Freud até as últimas descobertas das neurociências, o espaço virtual entre o corpo e a vida psíquica é investigado à luz de teorias e práticas das mais variadas.

A noção do inconsciente freudiano e a compreensão orgânica do Alzheimer se articulam historicamente em iniciativas clínicas e sociais com vistas ao tratamento e, desejavelmente, à cura do sujeito cujas capacidades cognitivas e características de personalidade sucumbem à passagem do tempo e à deterioração do corpo.

A estranheza prepondera, vira presença familiar. Entre o estranho e o familiar, surge um sujeito incerto. Perdido e despojado de suas referências, é jogado à estrangeiridade de si mesmo, ao duplo de si próprio. As imagens de si e do outro não mais encontram a imagem da memória, a vida desliza, em descompasso.
— Barros; Queiroz, 2009

O esforço dos profissionais dedicados à saúde mental reflete o impacto que o processo de envelhecimento e demência possuem sobre os sujeitos e seus familiares. Quando os adultos se tornam “crianças novamente”, requerendo cuidados intensos e rotineiros, os filhos e familiares mais próximos se veem obrigados a enfrentar uma dolorosa tarefa. Neste contexto, a busca por um asilo torna-se uma alternativa carregada de inúmeros significados e efeitos conscientes e inconscientes, tanto para o morador quanto para aqueles que o levam aos cuidados da instituição.

Como instituição destinada aos cuidados de idosos, muitas vezes já com alto grau de comprometimento da consciência, funções vitais e autonomia, o asilo lida com uma infinidade de variáveis que impactam a qualidade de vida e prognóstico de saúde física e mental de seus moradores. A vivência no cotidiano de uma instituição asilar desafia a promoção de saúde mental dos idosos, especialmente os acometidos pelo mal de Alzheimer.

Para Freud, o psiquismo humano é dividido em processos distintos, um consciente e outro inconsciente, sendo este último oriundo de uma repressão. Esta porção inconsciente seria o que há de mais verdadeiro e representante do desejo do sujeito. Todos nós somos, portanto, sujeitos divididos, e a passagem à consciência daquilo que está inconsciente se torna um meio de produção de saúde, uma vez que o material reprimido sempre gera efeitos sobre a vida consciente das pessoas, tanto positivos quanto negativos.

Freud descobriu que o material inconsciente exerce pressão sobre o Eu e se faz presente na vida consciente, dentre outros modos, por meio dos sintomas. E, analisando esses sintomas, descobriu que eles são carregados de sentidos. Freud também analisou o discurso dos psicóticos (os chamados “loucos” em nossa sociedade), e compreendeu que ali também havia um sentido, ainda que suas falas nos parecessem desconexas, irracionais.

Essas descobertas de Freud – de que os sintomas neuróticos têm origem no inconsciente e que esses sintomas são mensageiros de um sentido, e de que a estrutura psicótica seria um inconsciente a céu aberto, sem repressão – mudaram radicalmente o paradigma da ideia de normalidade e anormalidade em saúde mental. Freud nos mostrou como essa diferenciação de normal e patológico é imprecisa e que, uma vez que somos sujeitos divididos, ninguém pode ser considerado verdadeiramente “normal”.

Nesse sentido, quando o sujeito envelhece e tem sua consciência comprometida, seus pensamentos e discursos se tornam desconexos e irreais, porém isto não significa que não possuam um sentido, ou que não expressem desejos inconscientes. Uma senhora de 90 anos que pede para falar com a mãe ou jura que o filho a espera no portão pode estar separada da realidade por uma deficiência nas funções conscientes, mas expressa claramente afetos e desejos do inconsciente: o medo do abandono, o desejo de acolhimento, a angústia, etc.

 

UM REFERENCIAL PARA UMA ESCUTA

A psicanálise oferece um referencial teórico e metodológico importante, que faz frente às visões estritamente biológicas da demência, as quais não levam em consideração os aspectos psicossociais na construção singular que cada sujeito faz com seus adoecimentos. A psicanálise permite oferecer uma escuta aos aspectos subjetivos singulares que marcam o processo demencial de cada sujeito, e que são deixados de lado por outras abordagens de cunho organicista.

Dentro do vasto campo psicanalítico, encontramos possibilidades de escuta e intervenção profícuas e, antes de tudo, ética. Para Miller (1997 apud MORAO, 2005), abordagens que atribuem à demência o caráter estritamente neurológico podem ser descritas como:

Uma prática da palavra protocolar e arbitrária que procede com a regulação do sintoma e o consequente nivelamento de seu sentido. (…) Para a orientação lacaniana, “os sintomas não são transtornos, desordens, porque não existem ordem.

A ética psicanalítica, portanto, implica o profissional em uma posição de escuta equivalente àquela que oferece aos sujeitos ditos “normais”, uma vez que, a despeito da consciência comprometida – e, portanto, de um Eu comprometido, o que para muitas linhas da psicologia é um limitante – há, na visão psicanalítica, sempre um inconsciente em todo sujeito. O sujeito “sem memória” não é, portanto, um sujeito sem psiquismo. O sujeito é, para Lacan, constituído na linguagem, uma estrutura preexistente à constituição do sujeito.

[É Lacan quem] contesta a não historicidade do sujeito e abre uma perspectiva para a articulação entre estrutura e história. A historicidade do sujeito não é o norte na psicanálise, mas os significantes são marcados pela história e compõem o inconsciente que é estrutural. (FERREIRA-LEMOS, 2011)

Um encontro substancial da psicanálise com a temática do envelhecimento é relativamente novo se considerarmos a atenção que Freud e grandes teóricos das gerações seguintes dedicaram à terceira idade. Alguns estudos contemporâneos (MONTEIRO, 2001; MUCIDA, 2004; ABRAHÃO, 2008; KAMKHAGI, 2013) ressaltam um grande impasse freudiano: a conciliação entre o conceito da atemporalidade do inconsciente, que não obedece ao tempo cronológico e, portanto, não tem idade, com a ideia de que, na velhice (a partir dos 50 anos, como Freud sugere em 1898) há menor plasticidade do sistema psíquico para permitir efeitos do tratamento psicanalítico. Ainda, outra particularidade do texto de 1898 é que Freud inclui as restrições ao tratamento de “adultos débeis e incultos”, que aqui também nos interessa observar.

A resistência de Freud com o tratamento psicanalítico de idosos era respaldada por sua teoria de que, nessa etapa da vida, o sujeito abandona progressivamente sua capacidade de investimento objetal. Por consequência, haveria uma regressão ao narcisismo primário que levaria a libido a estágios pré-genitais (especialmente a fase anal) e os investimentos se voltariam para o Eu (FREUD, 1904). As perturbações da psique do idoso adviriam, pois, do retorno do recalcado oriundo dessa regressão pulsional.

O narcisismo seria, assim, para Freud, o ponto central da decadência no envelhecimento. A perda da saúde, da integridade física, a dependência e a proximidade com a morte requereriam do sujeito um Ideal de Eu muito estruturado para suportar as feridas narcísicas provocadas por tamanhas perdas.

A partir do construto lacaniano do Estádio do Espelho, alguns autores propõem a ocorrência de um fenômeno inverso na velhice. Messy (1999) dirá que “o horror de envelhecer encontra seu reflexo no espelho, sob o aspecto do eu-feiúra […] O tempo do espelho quebrado sobrevém na época da plena maturidade”. Já Maisondieu (1999) afirmará que nos deparamos com “…um verdadeiro estágio do desaparecimento do espelho. Em contraste com o que ocorre no estádio do espelho com a criança, o sujeito idoso é expulso do campo simbólico e empurrado para a demência”. Ambos concordam que, se o Ideal do Eu não dá conta de lidar com a tensão criada por esse imaginário tenebroso, o sujeito pode lançar-se à demência ou ao aniquilamento (MONTEIRO, 2011).

Miller (1997 apud MORAO, 2005) há duas décadas já nos alertava para o caráter burocrático e normativo de abordagens como as teorias cognitivo-comportamentais. Maisondieu (2011a) vai além ao nos propor que tal abordagem da demência é, na verdade, uma defesa:

Diz-se que a pessoa está demente. Preferem pensar que ela está nessa posição única de doente porque todos, incluindo ela própria, preferem pensar que ela está neste estado só por causa de uma violação de seu cérebro, para não ter de se perguntar sobre os aspectos relacionais dolorosos e angustiantes a resolver.

Estas são, pois, prerrogativas importantes que sustentam a posição do psicanalista, que busca considerar que “o sujeito da prática analítica é o sujeito do inconsciente, e este não envelhece” (FILHO; SANTOS, 2007) e que o discurso do sujeito acometido pelo Alzheimer é tão válido quanto de qualquer outro sujeito, ou seja, que “por trás da aparente desordem do comportamento insano, podem-se detectar intenções ocultas” (MAISONDIEU, 2011b).

No cotidiano asilar, é frequente a sensação de impotência dos profissionais frente ao contexto caótico que a demência provoca, que desafia nossa escuta e capacidade de intervenção. Contudo, nunca há conforto na posição de analista, e não recuar frente ao desafio é uma questão fundamental:

Trata-se menos de antecipar se a natureza do problema é acessível à psicanálise do que saber se o encontro com um analista será útil ou não, colocando no centro da questão a versatilidade do objeto psicanalista. (MILLER, 1997 apud MORAO 2005)

Ou seja, não se trata de discutir uma psicanálise aplicada aos portadores de Alzheimer em situação de asilamento, mas de pensarmos a posição e o desejo do analista nesse contexto, de modo a poder criar condições de instaurar um dispositivo de escuta e potencializar o encontro dos sujeitos com esse dispositivo nas instituições.

 

EM BUSCA DE UM TRABALHO POSSÍVEL

Em um trabalho psicanalítico com sujeitos neuróticos não acometidos pelo Alzheimer, nos consultórios ou instituições, conduzimos os analisantes a um processo de travessia de seus fantasmas, levando-os, por meio da associação livre, a desfiarem suas histórias e produzir modificações de posições na vida.

Contudo, a demência implica uma limitação desse processo porque dificulta ao sujeito do consciente estranhar, duvidar ou questionar os elementos do inconsciente assinalados e interpretados pelo analista. Por isso, um trabalho psicanalítico possível nesses casos requer um espaço em que se proporcione ao sujeito a condição de expressar-se e ser escutado nessa expressão, tal como ocorre na clínica psicanalítica das psicoses.

É preponderante que a comunidade psicanalítica se aproxime desses espaços e não recue diante do desafio do sujeito portador de Alzheimer tal como Lacan nos exortou a fazer frente à psicose desde a década de 1950, de modo que a presença desses profissionais nos espaços de asilamento possa contribuir para uma escuta qualificada do sofrimento dos enfermos e produção de mudanças, bem como no auxílio e aperfeiçoamento dos cuidadores e equipes de médicos e enfermagem, que frequentemente se sentem impotentes frente às demandas dos pacientes e as cobranças das famílias.

 

REFERÊNCIAS

ABRAHÃO, E.S. O desvelar da velhice: as contribuições da psicanálise na busca de sentidos para a experiência do envelhecer. Revista SPAGESP. Jan-Jun. v.9, n.1, p. 57-65. São Paulo, 2008.

BARROS, N.; QUEIROZ, E. Do corpo à subjetividade: um olhar psicanalítico sobre a doença de Alzheimer. Kairós Gerontologia v.12. ISSN 2176-901X. 2009. Disponível em: <http://revistas.pucsp.br/index.php/kairos/article/view/2667> Acesso em: 16 mar. 2016.

Conselho Federal de Psicologia. Código de Ética Profissional do Psicólogo. Brasília: CFP, 2005.

FERREIRA-LEMOS, P.P. Sujeito na psicanálise: o ato de resposta à ordem social. In: SPINK, MJP., FIGUEIREDO, P., and BRASILINO, J., orgs. Psicologia social e pessoalidade [online]. Rio de Janeiro: Centro Edelstein de Pesquisas Sociais; ABRAPSO, 2011, pp. 89-108. ISBN: 978-85-7982-057-1.

FILHO, J.T.R.; SANTOS, G.C. O desafio da clínica psicanalítica com idosos. Psic. Clin. v.19, n.2, p. 45-55. ISSN 0103-5665. Rio de Janeiro, 2007.

FREUD, S. (1898). A sexualidade na etiologia da neurose. Obras completas, ESB, v. XII. Rio de Janeiro: Imago, 1976.

FREUD, S. (1904) O método psicanalítico de Freud. Obras completas. Rio de janeiro, Imago, V. VII, 2006

KAMKHAGI, D. A clínica do envelhecer: novos olhares. III Congresso Ibero-americano de Psicogerontologia. Subjetividade, cultura e poder. Disponível em: <http://geracoes.org.br/novo_site/wp-content/uploads/2013/08/A-clinica-do-envelhecer-novos-olhares.pdf> Acesso em: 02 mar. 2016

MAISONDIEU, J. Alzheimer’s disease: cerebral illness or the illness of the mind?. Encephale. 25 Spec No 5:7-10; discussion 11. PubMed, 1999.

MAISONDIEU, J. (2011a) Âgisme et Alzheimer: le poids de la discrimination dans la genèse de l’Alzheimer. In: La relation au malade d’Alzheimer. MAIA 79 – Mission pour l’Autonomie et l’Intégration des malades d’Alzheimer des Deux-Sèvres (MAIA 79). Parthenay, 2011. Disponível em: <http://bit.ly/1XyOX0P> Acesso em: 27 mai. 2016.

MAISONDIEU, J. (2011b) Le crépuscule de la raison: la maladie d`Alzheimer en question. Paris: Bayard-Éditions.

MESSY, J. A pessoa idosa não existe. São Paulo: Aleph, 1999.

MONTEIRO, M.P. O tempo foracluído da psicanálise. Cógito n.12, p. 41-46. Salvador, 2011.

MORAO, M. La tendência actual a eliminar los síntomas. Virtual – Revista digital de la Escale de la Orientación Lacaniana. Ano IV, n. 13. Junho, 2005. Disponível em <http://virtualia.eol.org.ar/013/pdf/morao.pdf> Acesso em: 24 abr. 2016.

MUCIDA, A. O sujeito não envelhece: psicanálise e velhice. Belo Horizonte: Autêntica, 2004.

NEIVA, K.M.C. Intervenção Psicossocial: aspectos teóricos, metodológicos e experiências práticas. 1ª Ed. São Paulo: Vetor Editora, 2010.

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Cezar Siqueira

Cezar Siqueira

Psicólogo e Psicanalista, mestrando em Psicanálise pela Universidad John F. Kennedy, da Argentina. É MBA em Gestão Empresarial pela FGV e também graduado em Comunciação Social pela Universidade de São Paulo. Realiza treinamentos e consultorias em instituições públicas e privadas. Atende adultos e adolescentes em Pinheiros, São Paulo.

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