Sociedade

Que nome é esse que te nomeia?

O que é um nome? Para que serve? O que fazemos com ele e o que podemos fazer com ele numa análise?

Vamos pensar juntos. Até que ponto o nome que nos deram nos define? Por que e quem escolheu esse nome que hoje me nomeia? No que ele me constitui? Que poder tem a linhagem que define meu sobrenome?

Temos dois eixos para essa reflexão: há um nome próprio que deveria me definir como único. Digo “deveria” porque, para alguns é repetência, para outros, o lugar do substituto etc. E há também o sobrenome, que me mete numa linhagem, a princípio, esperando que eu seja um elo e lhe dê continuidade.

Podemos fazer essa brincadeira e esse exercício, mas sugiro que o faça na própria análise, porque seu nome dirá de você muito mais do que imagina.

De qualquer forma, já adianto que a eleição do prenome é primeira inscrição simbólica do ser humano, e no seu significado subjetivo e individual aparece o desejo dos pais.

Sabemos que, quando a criança nasce, não está virgem de toda inscrição: ela já traz uma história familiar que lhe precede. O  prenome é sua marca inscrita no desejo parental e seu sobrenome é a cadeia simbólica cultural onde estará inscrita. Em cima dessa história que a precede, a criança terá de inscrever sua própria história.

Poderíamos dizer que ela deverá se apropriar de seu próprio nome, inscrever nele sua singularidade, marcá-lo com sua subjetividade. Assim, o seu nome, ao somar-se ao seu sobrenome, se converte na marca indissolúvel da história simbólica familiar, na qual confluem várias gerações.

Se, por um lado, seu nome completo pode ser um ponto de referência que garante sua filiação, por outro pode amarrá-lo a um sintoma parental ou transgeracional e, quando isso acontece, o nome pode ser trabalhado como um enigma a ser decifrado.

 

Do nome próprio ao próprio nome

Para permitir que uma criança transforme seu nome próprio em próprio nome, pode ser bem interessante buscar os registros da história familiar, seguir seus movimentos, observar suas características, reconhecer as ideologias transpassadas e descobrir seus valores, seus significantes, as mensagens e os vínculos que atravessam as gerações. Revisitar o próprio nome é revisitar a própria constituição do eu, por isso, uma questão sempre inacabada.

O Princípio III, da Declaração Universal dos Direitos da Criança  diz que toda criança tem direito, desde o seu nascimento, a um nome e a uma nacionalidade.

Isso é importante porque dar um nome a alguém, ao mesmo tempo, institui algo que a individualiza, gera um ato de reconhecimento e algo que a insere num laço social, garantindo-lhe pertencimento. O que, indiscutivelmente, está ligado às funções simbólicas familiares, já que escolher e dar um nome a uma criança é banhá-la da história imaginária e simbólica da família, com seus valores e seus desejos. Seu nome a insere na continuidade de uma filiação, inscreve-a na soma das linhagens materna e paterna, dá-lhe o início do fio da meada transgeracional mas, ao mesmo tempo, faz-lhe única, uma vez que o nome faz desse sujeito um ser diferenciado dos outros membros da sua linhagem e dos membros das outras linhagens.

Não sei se já pensaram, mas de cara isso nos coloca numa espécie de dívida simbólica de passar nossas histórias aos nossos descendentes. É por isso que, em qualquer sociedade, ninguém escapa de ter um nome, por que é o que vai inscrevê-la na ordem social. Daí a importância que adquire o nome que se dá a uma criança e a forma como ela o recebe.

“Não ter nome é um desastre, uma desordem absoluta. Levar um nome significa ter um lugar num sistema relacional. Para existir verdadeiramente, é antes necessário ter sido nomeado; os nomes são portadores de significação e reveladores de vocações”. (J. Goldstain)

Assim, a maneira como será nomeada é decididamente reveladora do papel individual e social que os pais esperam que essa criança ocupe. Que poderíamos dizer dos nomes jocosos, do que recebe o nome de um morto, dos “Junior” que carregam o nome do pai, do que não recebe o nome que desejava? Ou aquele que foi atribuído a um nome no lugar de simplesmente ter recebido um? É que, às vezes, atribui-se um nome a uma criança, outras vezes, atribui-se uma criança a um nome.

Vejam bem, não vamos confundir as coisas: a procriação é biológica, mas a filiação é simbólica. É a filiação que garante que cada um exerça um papel e tenha um lugar na dinâmica familiar. Seja ele um bom ou um mau papel, seja essa uma posição confortável ou desagradável. Mas sempre, afinal, uma posição e um lugar. Trata-se de uma estrutura significante que a criança recebe antes de nascer e que determina suas funções.

A procriação é biológica, mas a filiação é simbólica.

Não quero dizer com isso que o nome traga um destino imutável e determinado. Cada um pode e deve se reapropriar de seu nome, reescrevê-lo a partir da própria história, recriar seu significado. O nome será o mesmo, mas terá nova roupagem. É isso a que chamo transformar o nome próprio no próprio nome. Se, na escolha de seu nome, a criança traz um enunciado do desejo dos pais, para se transformar em sujeito, o sujeito dessa enunciação, terá que fazer seu o nome que lhe foi dado.

 

A ESCOLHA DO NOME

Muitas vezes, as razões que motivam a escolha de um nome parecem conscientes: é porque significa tal coisa, é porque foi o nome de tal personalidade, é porque é o nome que homenageia alguém, porque é mimoso, porque é forte, e por aí vai. Nada disso impede que sua verdadeira significação permaneça inconsciente, resultado de uma condensação de desejos e fantasias, construídos a partir de significados e significantes, fazendo do nome um signo.

Isso o constitui o sujeito, mas é preciso que ele o resignifique para não ficar amarrado ao desejo dos pais, cumprindo uma espécie de premissa ou saga familiar. Tornar-se sujeito quer dizer falar em nome próprio, com seu inconsciente separado dos demais, reconhecer-se como outro. Transformar seu nome em uma marca que o torne indivíduo, pertencente a um todo, mas único.

Um nome pode significar um investimento ou um contrainvestimento, de como o ato de nomear nos dá uma bandeira de cores, com diversas variações possíveis.

O nome tem a função de dar a uma pessoa um lugar singular, original, inabalável, conferindo sua originalidade numa transcendência e oferecendo-lhe um lugar no mundo.

Não se trata exatamente de dar uma nova roupagem: é mais como a pele do que a roupa. Porque a roupa pode ser trocada, mas a pele está engendrada. Sobre a pele temos a erogenidade constituinte, através do reconhecimento dado na nomeação. Depois da fase de narcisismo do sujeito, entrevemos um corpo que sustenta um ego.

Estou me referindo ao ego imaginário, constituído durante o estágio do espelho, quando a função materna funciona como um espelho metafórico, promovendo a diferenciação desse outro que me olha e me reflete e diz de mim o que eu sou. É assim que a criança se encontra com a linguagem que, ao mesmo tempo, a precede e a insere no mundo. Lacan diz claramente que a criança se alimenta tanto da palavra quanto do leite.

A criança vai se reconhecendo pelo reflexo de sua imagem no espelho e pelo eco de quem fala com ela, de como ela é falada. É pela linguagem, pela voz do outro que ela se representa auditivamente, encontra seu próprio nome pronunciado e carregado de significantes.

G. Cabas diz que o fato de recebermos um nome e um sobrenome num documento específico nos confere a ilusão de identidade. Mas não é isso que garante a noção de unidade. Se para cada um de nós existe um nome singular que diz “você é Silvia, você é Pedro, você é Maria”, transformando-nos em seres independentes, por outro lado é pela alienação ao outro, é sempre em função de alguém que recebemos as representações que vão nos constituir.

Denis Vasse afirma que “a vida atravessa o homem mais do que ele a atravessa. Em seu corpo que passa, a vida diz como que estava ali antes dele, e o traço que nele deixou é o seu nome próprio”.

Sabemos que o nascimento de uma criança não lhe garante sua inscrição no universo simbólico. Essa inscrição lhe é oferecida pelo Outro através da linguagem, dos significantes da linhagem de seus antecedentes. Seu prenome dá significação ao eu constituído entre seu corpo e o corpo do outro, funcionando como ponto de ancoragem do desenvolvimento do ser do nomeado, podendo influenciar em seu destino, ainda que não o perceba.

antes do nascimento, estamos inseridos numa rede de relacionamentos complexa que, de certa forma, inconscientemente nos determina, uma vez que ela comporta um ser, ao mesmo tempo, único e coletivo. O eu e o nós, o eu e os outros, o Outro e os outros.

Uma criança responde ao seu próprio nome e reconhece seu chamado antes de saber-se “eu”. Refere a si mesmo em terceira pessoa: “Pepe qué água”, “Nina papá”. Vai, assim, dando contorno linguístico, simbólico ao seu reconhecimento como alguém separado de seus pais.

Estamos falando de um nome que não vem sozinho. Seus aspectos simbólicos perpassam no olhar, no toque e na voz do Outro primordial – função materna – e, depois, com o descentramento do Édipo, a entrada do terceiro – a metáfora paterna, o Nome do Pai, representante da lei simbólica.

O descentramento do Édipo reapresenta e nos faz face à falta, às diferenças sexuais e à origem dos bebês. E, assim, às responsabilidades e desejos geracionais.

Com o nascimento de um bebê, os pais vão reviver suas próprias relações com os pais de sua infância e, consequentemente, com sua própria posição familiar. Os pais de agora são ligados a seus pais, os avós, por afetos, representações, conceitos sociais. Os avós também, em relação aos bisavôs e assim por diante, todos colocados como elos de uma mesma corrente.

A criança vai receber tudo isso com uma inevitável violência, porque no espelho do olhar parental vem junto o peso das expectativas, dos desejos, das esperanças de realização.

Todas as gerações são recolocadas no tempo e no espaço, reorganizadas em relação à vida e a morte, convocadas a revolver suas representações conscientes e inconscientes, tudo isso influenciando suas relações com o bebê que acaba de chegar. A criança vai receber tudo isso com uma inevitável violência, porque no espelho do olhar parental vem junto o peso das expectativas, dos desejos, das esperanças de realização.

Também a triangulação edípica se repete uma após a outra, sobrepostas, retroinfleunciando-se. A triangulação, ora iniciada, vem a ser construída a partir de como se deram as anteriores relações edípicas. O que vai diferenciá-la é, mais uma vez, o seu nome, não qualquer nome, mas o que lhe faz um sujeito único. É isso que lhe possibilitará tomar um novo lugar simbólico e não se manter submetido ao desejo do outro, construir um lugar próprio a partir do lugar herdado e tomar posse dele. Ocupar um lugar é também dar movimento e dinamismo a todos os outros lugares dos membros da família.

 

A FORÇA DO SOBRENOME

Podemos pensar agora: o nome escolhido traz um valor determinante ou significante?

Alguns autores, como Abraham e Steckel, falam da força determinante do nome do ponto de vista semântico. Para eles, o que influenciaria no destino do indivíduo seria o significado, o valor semântico do prenome escolhido e do sobrenome.

Mas penso que o sobrenome garante a linhagem e o prenome possui uma força significante. Vai funcionar como o ponto de capiton que ligará os siginificantes dos mitos familiares aos próprios do sujeito. Esses processos são em grande parte inconscientes.

A força significante do prenome está no fato de a criança estar influenciada pela força dos significantes parentais inconscientemente relacionados com o nome escolhido. Isso afasta a ideia de que o valor semântico sozinho tenha seu valor, senão quando estiver inserido no contexto dos significantes parentais.

Os sobrenomes hoje, com raras exceções, também já não têm a mesma carga de valor social como tinham antigamente. Minhas avós, quando queriam saber com quem eu andava, perguntavam: qual é o sobrenome de fulano? É filho de quem? A resposta era suficiente para dar a uma pessoa toda uma identidade e uma carga de valores. Agora já não se pode admitir um peso tão grande ao sobrenome de alguém. Antes a transmissão automática do sobrenome garantia a estirpe de um sujeito. Hoje, já não há mais essa força determinante, a força agora é muito mais pelo significante.

A transmissão do sobrenome nos diz da raça, etnia, origem cultural. São transmissões metafóricas. Mas o prenome como significante nos diz dos desejos parentais, são transmissões metonímicas. Portanto, o significante pode ser determinante, mas não a força semântica. São as razões inconscientes da escolha que terão essa força.

Independentemente de o prenome ter sido escolhido numa lista, ser um nome de santo, do avô, do personagem da novela ou um nome da moda, ele trará sempre uma singularidade na definição dessa escolha e, junto dele, é colocado o sobrenome familiar. O caráter dessa escolha nunca é só pela sonoridade. Há sempre um caráter inconsciente nessa escolha do prenome e na eleição de qual dos sobrenomes parentais essa criança receberá. Mesmo que haja um motivo para a escolha, que esse motivo seja consciente, as motivações sempre têm uma carga inconsciente agregada.

O ato de nomear, sempre traz algo de significativo. Mesmo que o nome não traga em si nenhum significado explícito, não quer dizer que não tenha efeito significante, já que está justo onde se cruzam os mitos familiares e os desejos dos pais em relação a essa criança. Isso vai servir de base ou de moldura de sua futura identidade.

 

RESSIGNIFICAÇÕES DO NOME

Se aceitamos a ideia de que, ao tomar posse de seu nome, alguém pode reeditá-lo e resignificá-lo, admitimos que possa dar novas orientações dinâmicas em seu movimento, assumindo diferentes formas em reformulações incessantes.

Os apelidos e os pseudônimos são um exemplo disso: ao sermos apelidados, recebemos nova nomeação com novos significantes. Se usarmos um pseudônimo, nós nos nomeamos de outra forma, também com outros significantes.

A construção de sua própria história não é propriamente somada à história de seus ascendentes, mas uma reedição modificada com novas representações, transformando e interagindo com seu sentido inicial. O que é alienante a princípio, já que define a criança antes de sua própria subjetividade, tornar-se-á, mais tarde, âncora para sua alteridade, com a apropriação de seu próprio nome e seus próprios desejos. A soma de ambas as coisas é constituinte do psiquismo do sujeito.

Se alguém só for reconhecido por seus atributos, a partir de que momento, de quantas perdas de atributos, uma pessoa deixaria de ser ela mesma?

Há quem diga que um nome pode ser definido por ligar alguém a algo que o referencia, por uma descrição. Se, ao perguntamos “quem é Maria?”, obtivermos a resposta “Maria é mulher de João”, a resposta traz uma predicação, uma descrição de um atributo de Maria. Mas, se assim for para definirmos quem é uma pessoa, quantos atributos são necessários?

Se alguém só for reconhecido por seus atributos, a partir de que momento, de quantas perdas de atributos, uma pessoa deixaria de ser ela mesma? Será que somos definidos uma coletânea de predicados, como por exemplo, “Maria é filha de fulano e fulana, mora em tal lugar, trabalha em tal empresa”, etc.?

Bem, qualquer que seja o caso, o nome pode registrar um sintoma. Se é um sintoma psicopatológico, podemos admitir que tivesse uma valoração subjetiva e particular. Interrogar a nomeação, em seu sentido simbólico, é enigmatizar a forma como alguém se apresenta.

O nome, portanto, encerra um significado, ou seja, é aquilo que representa alguém específico e diz de uma pessoa. Lacan diz que um nome designa alguém e que é por essa designação que somos introduzidos no humano.

Mas, se um nome encerra um significado e designa alguém específico, assim que o sujeito se dê conta disso, pode começar a resignificá-lo, dar-lhe seu próprio sentido, criar algo de novo.

Primeiro temos o tempo do imaginário, onde encontramos um sujeito nomeado pela sua linhagem e alienado ao desejo parental, temos “S”, um sujeito não cindido. Depois temos a passagem do significado ao significante, o que quer dizer do imaginário ao simbólico. Temos agora o sujeito cindido.

Se seu nome estiver aberto a novas significações, pode-se mudar seu sentido, ressignificá-lo é trabalhar até que se produza algo distinto daquilo que o sujeito significava para um Outro.

Mas será que não existem casos em que um nome não está aberto a outros sentidos? Pode ser que existam alguns casos em que não se possa fazer coisa alguma, que o sujeito responda a algo fixo? Será que nestes casos estamos fora dos registros do imaginário e do simbólico e nos deparamos apenas com o estatuto do real?

Essa é a parte que permanece num nome independentemente do que façamos com ele. Lacan deixa muito claro: só existe responsabilidade na medida em que se sabe fazer algo com seu “sinthoma”.

Para Lacan, o nome traz uma verdade que aponta, designa, mas não significa: o nome próprio, que não se destina na cadeia de predicados e atributos. A verdade não é tudo, diz Lacan. A psicanálise lida com isso, não com toda a verdade.

É aí que chegamos ao final de uma análise, do nome próprio ao próprio nome. É sempre assim, na tentativa de dizer tudo. Chegamos sempre ao “falar em nome próprio”. Estamos diante de um enunciado que se iguala a sua significação.

O fim da análise exige a escolha forçada de se decidir no indecidível.

Como nos diz Jorge Forbes: “Não se espera mais a solução, opera-se”.

 

Referências:

Aulagnier, P. (1975). Violência da Interpretação. Paris: PUF.

Lacan, J. Escritos e Seminários.

Freud, S. (1996). Carta 52 a Fliess

Freud, Obras completas.

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Silvia Marina de Melo Paiva

Silvia Marina de Melo Paiva

Psicóloga , psicanalista e analista institucional. Com experiência em atendimento clínico, supervisão e transmissão da psicanálise. Formação em psicossomática psicanalítica e especificidades da clínica da drogadependência. Membro do corpo docente do Curso de Formação em Psicanálise do Centro de Estudos Psicanalíticos e colaboradora em outros institutos de formação.

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