ClínicaTeoria

Sem escuta não há sujeito

Apesar de haver um avanço das práticas de políticas públicas, a psicanálise ainda mantém um discurso que não oferece um estatuto de sujeito ao psicótico. 

Com a reforma psiquiátrica, os sujeitos psicóticos antes asilados ganharam as ruas. Residências terapêuticas servem agora para acolher esses sujeitos sem retaguarda familiar. Quem tem família é abrigado por elas, mas não sem desconforto. Essa readaptação traz novas questões. Esse sujeito vai trabalhar? Como ele vai se manter? Muitos recebem benefícios governamentais e mantém-se numa posição de tutelados por alguém.

Outros que recebem o diagnóstico de psicótico após a reforma encontram uma lógica inclusiva no meio social. Em meio a crises psicóticas, se internam e, depois de estabilizados, retornam para suas casas. Internações prolongadas não estão em voga. Nesse contexto, surgem novas práticas inclusivas. Uma delas é o acompanhante terapêutico ou, simplesmente, AT.

Apesar de haver um avanço das práticas de políticas públicas, a psicanálise ainda mantém um discurso que não oferece um estatuto de sujeito ao psicótico. Jargões utilizados na década de cinquenta ainda são utilizados, tais como secretariado do alienado, o psicótico fora do simbólico ou da linguagem.

Devemos rever esses jargões e sua veracidade ou mesmo sua aplicabilidade. No contexto asilar, poderia sustentar que os sujeitos psicóticos eram alienados, mas a figura do alienista, que não existe mais, exige uma revisão desse termo. Por que utilizar um termo que caiu em desuso nos dias atuais? Devemos rever a pertinência desse termo e também a ação do analista perante a psicose.

Somos coniventes com uma percepção de que os sujeitos psicóticos não são capazes de responderem por si.

Lacan ficou conhecido por promover apresentação de pacientes, prática ainda comum entre psicanalistas. Mesmo hoje em dia, há instituições psiquiátricas que promovem esse evento. Não são mais os mesmos sujeitos de 1950, mas o viés teórico lacaniano deixou algumas marcas que vimos sendo repetidos. A discussão clínica perante a psicose tornou-se algo para demonstrar que a teoria criada ainda é utilizável. Mas temos como consequência uma parada no desenvolvimento de outras possibilidades perante a psicose. No máximo, fazemos uma abrangência de termos, como psicose ordinária, melancolia, loucura histérica etc. Mas o sujeito psicótico ainda se mantém poupado de uma exigência ética da psicanálise: a responsabilização.

Por não ser totalmente responsável pelos seus atos perante o sistema judiciário, o sujeito psicótico também é poupado pela psicanálise. Ou seja, os psicanalistas não responzabilizam o sujeito psicótico. Somos coniventes com uma percepção de que os sujeitos psicóticos não são capazes de responderem por si. Há um encontro da psicanálise e o senso comum. Desse modo, só há uma maneira de lidar com eles: tratá-los como incapazes e serem tutelados pelo estado e/ou família ou serem secretariados por seus analistas.

Rever a teoria sobre a psicose exige uma mudança de paradigma: dar um estatuto de sujeito aos sujeitos psicóticos.

Se colocarmos dessa maneira, há alguns pontos sobre os quais devemos nos debruçar. Um deles é a relação do sujeito psicótico com o simbólico. Há um desligamento da realidade no delírio, porém não encontrei até agora um sujeito que delire 24 horas por dia. Mesmo assim, há uma diferencia entre o simbólico e a realidade. Ou seja, há uma impossibilidade de estar fora do simbólico. Um exemplo disso é o caso clássico de psicose da psicanálise: caso Schereber. Se o presidente Schereber está fora do simbólico, como ele conseguiu escrever suas memórias e mesmo ser presidente de um tribunal?

Uma crise delirante desqualifica um sujeito que conseguiu ser nomeado presidente do judiciário? O diagnóstico dado por Freud de dementia paranoide foi tomado simplesmente por paranoia pelos pós-freudianos. Isso acarreta um problema pois, se há uma crise delirante, o sujeito é psicótico e demanda cuidados especiais para o resto de sua vida.

O que qualificamos como verossímil é uma questão polêmica e depende muito da cultura e de uma suposta verificação de dados.

Mesmo quando o sujeito delira, ele rompe com a realidade, não com simbólico. O delírio de ser a mulher de deus é passível de compreensão, porém nos causa um estranhamento por ser inverossímil. Por um conjunto de crenças compartilhados, logo desqualificamos a veracidade do que é dito. O sujeito psicótico não tem crédito pelo que diz. O que qualificamos como verossímil é uma questão polêmica e depende muito da cultura e de uma suposta verificação de dados. Tão complicado como um sujeito neurótico que vem a uma sessão e relata que sua mãe o amava muito. Dado dificil de ser verificado, mesmo que lhe ocorra de chamar ao consultório a dita mãe desse sujeito.

 

A APOSTA NO SUJEITO

Lacan, em seu último ensino, apostava num delírio que todos os sujeitos apresentavam. O modo singular de cada sujeito com a verdade foi a base para que colocassem o delírio em uma dialética com a verdade. Para um sujeito paranoico, a certeza de estar sendo perseguido não difere da certeza apaixonada de um sujeito que acredita piamente em Deus.

A qualidade de delírio foi e é objeto de estudo da psiquiatria e assimilada pela psicanálise. Os ditos fenômenos elementares que são parâmetros para a psiquiatria elaborar uma hipótese diagnóstica ainda é usada. Por mais que haja outros parâmetros para um psicanalista fazer um diagnóstico, tais como qualificar a transfêrencia do sujeito, a psiquiatria ainda tem uma grande influência na psicanálise.

Romper com a psiquiatria não é tarefa fácil, afinal, inúmeros conceitos advêm dela. Não podemos esquecer que Lacan era psiquiatra antes de se tornar psicanalista. Há uma tentativa de separação em seu último ensino, porém, a lógica da topologia e matemática torna-as mais trabalhosas do que consultar um DSM. A maneira como o sujeito se organiza de modo singular ainda não está finalizada e requer trabalho.

Os agrupamentos estatísticos do DSM ou CID estão crescendo e, a cada edição, são adicionados novas categorias ou novas sub-categorias. Borderlines e autistas são categorias que causam discussões no meio psicanalítico. Há os que ainda querem escutar um sujeito atravessado por um viés estruturalista (somente 3 estruturas) e outros que querem uma quarta estrutura.

Discussões à parte, o que podemos fazer para a psicanálise acompanhar os tempos modernos? A discussão da existência de uma quarta estrutura procura retirar da psicose tudo que difere de uma ordem neurótica, tanto borders e autistas que, por não serem neuróticos, são categorizados como psicóticos. Quando escutamos esses sujeitos, nos deparamos com diferenças gritantes. Como consequência, resta uma psicanálise que só se presta a escutar neuróticos. Psicóticos, borders e autistas, nessa psicanálise, acabam não tendo estatuto de sujeitos. E, numa psicanálise em que somente o neurótico tem essa qualidade, o secretariado desses novos alienados deriva como a única possibilidade de intervenção.

Portanto, a inclusão desses sujeitos alienados só é possível na psicanálise se houver um estatuto de sujeito. Sempre há a aposta no sujeito do inconsciente em qualquer análise.

Esses sujeitos excluídos pela psicanálise simplesmente não possuem inconsciente? Obviamente possuem. Eles não compartilham de uma lógica neurótica, mas são dotados de inconsciente.

Não há a construção do romance familiar de Freud, há novos arranjos. A demanda amorosa que se torna central na psicanálise, nesses casos, tem outro estatuto.

O laço social como objetivo de tratamento nos casos de psicose nada mais é que uma tentativa de incluir o sujeito numa lógica neurótica.

O laço social como objetivo de tratamento nos casos de psicose nada mais é que uma tentativa de incluir o sujeito numa lógica neurótica. O paradigma de laços é maior que a demanda amorosa. Novos laços são possíveis. A famosa figura do sujeito suposto saber não causa embaraço para sujeitos psicóticos, não há uma servidão a figuras de saber. A criação de saberes é abundante. Classificar esse saber dos sujeitos psicóticos somente como delirante é uma maneira de defesa dos saberes acadêmicos. É preciso qualificar o saber dos sujeitos psicóticos como um saber que merece ser escutado.

A curiosidade em escutar sujeitos psicóticos demanda um cuidado para não desqualificar ou até mesmo enquadrar o sujeito em alguma lógica pré-estabelecida. O delírio é uma criação do sujeito e aponta para uma singularidade deste. O sofrimento desse sujeito nos impele a agir de uma maneira terapêutica e descartar a singularidade desse sofrimento. A qualidade de sofrimento da neurose e da psicose difere, mas, pelo senso comum, é mais suportável escutar um sujeito que terminou um relacionamento do que um sujeito que se diz perseguido pela CIA.

A aposta que a psicanálise realiza é no sujeito do inconsciente, e não na neurose.

Poder incluir no discurso psicanalítico sujeitos que se encontrem na lógica não neurótica torna-se uma tarefa árdua devido ao viés da escuta do analista. O modelo da análise a que os analistas se sujeitam, este que tem o paradigma da travessia do fantasma, não é suficiente para se escutar sujeitos que se encontram fora dessa lógica.

A topologia aponta para outra lógica que abrange todo tipo de sujeito. As construções dos nós que são realizados de maneira única e singular. Para que isso se estabeleça, é necessária uma revisão da posição do analista e de sua ética. Questionar preceitos teóricos e propor novos paradigmas que deem estatuto de sujeito a todos. Cabe ao analista se responsabilizar por sua escuta como aposta nos sujeitos. Sem essa aposta, a psicanálise corre o risco de tornar se uma clínica terapêutica, ou pior, uma religião.

 

Imagem: Erik Johansson

Compartilhe:
Cadu Murakami

Cadu Murakami

Psicanalista e psicólogo, professor no Instituto Langage. Atende adolescentes e adultos em Pinheiros, São Paulo.

nome proprio
Artigo anterior

Que nome é esse que te nomeia?

Intolerância
Próximo artigo

Intolerância

Nenhum comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *