Teoria

TEMPO DE DENTRO, TEMPO DO MUNDO

Em primeiro lugar, é preciso dizer que vou defender que a questão do tempo que nos ocupa em psicanálise é em nada coincidente com o que é vivido por nós pela contagem cronológica.

Explico: quando pensamos no tempo vivido cronologicamente, estamos pensando em registros de memória e a memória é um registro do sistema perceptivo. Mas nosso objeto de trabalho é o inconsciente e, desde já, esclareço: o inconsciente não é o passado, inconsciente é o que não passou. São registros que continuam vivos e, sobretudo gerando seus efeitos.

Numa situação analítica, tem-se uma memória que foi simbolizada (o que se lembra) e uma memória real, que sempre esteve ali (imaginária). Não importa se este real foi realidade, mas sim que ocupa o lugar de realidade no psiquismo do sujeito que fala.

É com essa verdade que trabalhamos – a verdade do inconsciente, da qual não se pode saber toda, uma vez que sempre haverá um resto inconsciente que nos permanece inacessível e que é atemporal.

O que nos é impresso desde sempre, pela nossa própria condição, dada a prematuridade do bebê humano, é uma relação de dependência que nos imprime, desde o início, a necessidade do outro para sobrevivermos. Assim, é desde sempre, é no tempo do outro que serão satisfeitas nossas necessidades primárias para a sobrevivência.

Isso gera a ideia de que é pela alienação ao outro que posso existir e é pela hiância, pela separação que se instala entre o eu e o Outro que passo a saber que existo, já que só posso saber do que me falta, quando o Outro se ausenta. Mas se nada falta, o que faltará é a capacidade de desejar.

Assim, através desse tempo que não é o meu, no aqui e agora do que eu sinto, também aprendo que o que eu preciso e o que eu desejo não dependem do meu tempo, o que me obriga a construir internamente uma relação pessoal com o tempo que não está no relógio: para além do tempo da satisfação, há o tempo da espera, da necessidade de postergar, da hiância que se instala no tempo que decorre na falha entre a percepção da falta e o complemento materno.

Nesta hora, a dimensão de um outro tempo começa a se instalar. É preciso que se vivencie a ausência do Outro em relação ao momento do chamado e, assim, experimentar a privação e a frustração, sentidos como desamparo e abandono respectivamente. Mais tarde, isso ganha ainda mais força com os interditos edípicos que promovem um imperativo que completa a sequência das faltas fundamentais da constituição humana: a castração.

Com essa etapa, se inaugura a entrada no registro simbólico, quando a percepção do tempo ganha a perspectiva simbólica de passado, presente e futuro, inseridos na cronologia da cultura.

Se nas primeiras faltas, as faltas dos objetos de necessidade e dos objetos de dom, foi possível se individualizar, essa nova aquisição pós-edípica inaugura a transformação do indivíduo em um sujeito: sujeito capaz de desejar, sujeito ao imenso trabalho psíquico que o diferenciou no mundo humano.

Mas essa condição tem um preço: viver para sempre sabendo que algo sempre falta. Porque falta um significante que diga o que ele é. Por isso, fica o falta-a-ser sobre o qual o sujeito se queixa sempre na insuficiência.

 

O TEMPO DA PRESSA

No mundo animal, o tempo é expresso como condição de sobrevivência. No canal Animal Planet, há uma vinheta que diz assim: “todas as manhãs, a gazela acorda e sabe que tem que correr mais rápido que o leão mais rápido, todas as manhãs o leão acorda e sabe que tem que correr mais rápido que a gazela mais lenta, mas todos sabem a mesma coisa: para sobreviver, tem que correr mais rápido que no dia anterior”.

O mundo tem sempre pressa. Mas, nossa dimensão da pressa é marcada pelo registro que faz a pulsão subverter o instinto.

É sobre a tensão da pressa que se realiza o que se tem que fazer. É na pressa que tiramos nossas conclusões da vida. Por isso que tanta gente está sempre se perguntando por que deixa tudo para a última hora ou se queixando que não funciona sob pressão. Mas no fim das contas, é a pressa interna que nos faz agir. Mesmo o obsessivo, que, por não decidir nunca, larga a dúvida quando não há mais tempo.

Mas há sempre algo que precisamos nos lembrar: há uma interdependência das pessoas com relação ao outro. A vivência na cultura imprime a necessidade de que a ação de um dependa da ação do outro. E o tempo que decorre entre o um e o outro é o que determina maior ou menor pressa na tomada de atitudes.

Ocorre que, se não me apresso a responder à pergunta sobre quem sou eu, corro o risco de ser definido apenas pelo outro.

Lacan diz que “nossa capacidade criativa se dá na descontinuidade e sob o império da urgência”. Nossas conclusões sobre as questões da vida surgem através de uma luminosidade do pensamento, correspondente ao insight freudiano, mas temos que concluir logo para que o outro não o faça primeiro. Assim, diante do risco da conclusão se apresentar com um tempo de atraso em relação às percepções dos outros, temos pressa.

Lacan descreve esse momento como uma iluminação que eclipsa a objetividade do tempo que usamos para compreender as coisas. Na pressa, o sujeito precipita seu julgamento e seu ato pela urgência do movimento, provocando uma asserção subjetiva com status de verdade que só é confirmada a posteriori. Ela só poderá ser confirmada na certeza – é o que Lacan chama de certeza antecipada, uma vez que só poderá ser confirmada através dela mesma.

 

O TEMPO DA ANGÚSTIA

A pressa é provocada pela angústia de correr o risco do não saber. No ato de certeza antecipada, o sujeito tenta arrancar a certeza da própria angústia provocada pela dimensão imaginária do outro, no qual se reconhece pelo espelhamento identificatório. A manutenção dessa identificação especular na resposta sobre que é o sujeito pode ser psiquicamente mortífera. Assim, numa busca libertária desse modo de identificação, é preciso enunciar algo que o diferencie: “Eu me apresso em me afirmar quem sou” – marcando a constituição do sujeito.

O que marca esse momento no qual a enunciação coincide com o enunciado, constitui a singularidade do ato de reconhecer-se, devido à pressão temporal provocada pelo risco do não ser: por isso a pressa. Neste sentido, segundo Lacan, “a pressa é amiga da conclusão”.

Mas o tempo do neurótico é também é o tempo da angústia, já que, diante das decisões a serem tomadas, paralisa entre as sensações de que é tarde demais ou de que ainda não é hora.

Com Lacan, lhes conto que o tempo do neurótico está sempre vinculado ao seu desejo.

 

O TEMPO DO OBSESSIVO E DO HISTÉRICO

Para o obsessivo, que formula seu desejo como impossível, postergar o ato de certeza é o possível, porque sempre tem sensação de que pode ser tarde demais. O histérico repete sua imaturidade, apostando sempre ser cedo demais, o que garante a insatisfação do seu desejo.

É assim que, para o neurótico, nunca é chegada a hora de seu desejo, há sempre um escape. Perde sempre a hora H, porque está ainda preso à hora do Outro, pendurando seu desejo ao desejo do Outro.

O obsessivo está sempre esperando, transformando o tempo de agir numa impossibilidade infinita dada pela indecisão. O histérico está insatisfeito porque não conseguiu reagir quando teria precisado, então se antecipa infinitamente, sem poder esperar. Por isso a histérica se atrasa, se ausenta, se faz esperar; e o obsessivo se prende à uniformidade do tempo do relógio, chega mais cedo para esperar e cronometra a sequência dos fatos.

Existem outras situações nas quais a questão do tempo se apresenta de forma peculiar na clínica psicanalítica como, por exemplo, na depressão.

 

O TEMPO NA DEPRESSÃO

Na sua relação com o tempo, uma pessoa triste mantém a sua capacidade de relativizar seu sofrimento, consegue vê-lo como uma etapa desagradável da vida, mantendo assim a esperança de um futuro melhor. Mas uma pessoa deprimida se absorve tanto com sua dor, que sua vida fica reduzida ao momento presente: é como se o tempo parasse. O deprimido não pode projetar nada para o futuro ou “nostalgiar” sobre o passado, não faz nada mais do que uma ruminação amarga usada contra si mesmo. A esperança é para ele algo inconcebível.

Uma pessoa deprimida se absorve tanto com sua dor, que sua vida fica reduzida ao momento presente: é como se o tempo parasse.

Nossa contemporaneidade não ajuda muito na elaboração do sofrimento. Há um imperativo que diz: “Goze! Seja feliz!” Esse imperativo não suporta o sofrimento, ele nos diz que tudo tem que ser já e agora.

Quem não tem possibilidade de lidar com o tempo da espera e não tem recursos psíquicos para lidar com as impossibilidades da vida, só pode experimentar o vazio existencial, a dor de viver e o tédio.

Maria Rita Kehl interpreta que essas pessoas só podem dar conta disso por duas vias: ou sucumbem e temos a depressão, ou, para não sucumbir, se defendem do sofrimento por meio das mais diversas atuações.

Refletindo sobre o contraste entre a lentidão do depressivo e a velocidade da vida, Khel chama a atenção para o predomínio da vivência sobre a experiência, produzindo um sentimento de vazio. Dessa perspectiva, a autora entende a lentidão do depressivo como uma resistência inconsciente ao tempo do Outro.

Por outro lado, eu levanto a hipótese de que talvez a rapidez e a voracidade de ato-sintomas sejam uma defesa rápida contra a lentidão do depressivo. É quando surgem as doenças psicossomáticas, os transtornos alimentares, a drogadicção e tantos outros.

Se for verdade o que diz Lacan sobre nossa capacidade criativa se dar na descontinuidade e sob a pressa da urgência, o tempo vazio do depressivo não pode ser vivido como tempo criativo, mas como tédio angustiante e como fadiga de viver. Os atos-sintomas seriam uma resposta rápida ao tempo impossível de se alcançar?

 

O TEMPO DO MUNDO

Essas formas de viver o tempo são consequências dos sofrimentos decorrentes de sentimentos de perda do lugar no mundo. Atingem todas as vias imaginárias que sustentam o sentimento do ser, desembocando na sensação da perda de posições subjetivas do eu.

Quando não pode contestar o que o outro define do seu “eu”, quando o Outro deixa de estar representado numa única e incontestável figura de autoridade, quando a libido tem que se voltar para dentro para dar conta de si, o sujeito é obrigado a se afirmar como centro das referências e a se responsabilizar por estabelecer alguma concordância entre a verdade de si e do mundo.

Quando perde as referências simbólicas do tempo, só importa o presente. Passado e futuro ficam ressignificados pela importância do presente. Isso exige do sujeito uma saída pela qual ele nada mais pode, a não ser seguir assujeitado pelo desejo do outro e pelo tempo do outro.

Se podemos desejar, precisamos dirigir esse desejo a alguém. Ao fazê-lo, temos que apresentá-lo pela configuração de significantes que o transforma em demanda. Mas o neurótico precisa se apressar, essa é sua dificuldade com a questão do tempo. É preciso cortar as hesitações e precipitar algo que tenha o efeito da verdade, ainda que sempre uma verdade antecipada e com o risco do equívoco.

É assim que a pressa do mundo cola na pressa psíquica.

 

O TEMPO DE CONCLUIR

Eu falava sobre a certeza do sujeito, que é impelida por um ato de asserção de certeza antecipada, que “só-depois” o sujeito saberá se terá sido boa. Essa verificação “só-depois” diz de alguma coisa que é vivida como verdade antes mesmo de poder ser verificada. Há um hiato irredutível entre a verdade e sua verificação, que se reduz à dimensão temporal da pressa.

Há um hiato irredutível entre a verdade e sua verificação, que se reduz à dimensão temporal da pressa.

Na análise, a realidade psíquica se apresenta através de uma articulação entre o real, o imaginário e o simbólico. A memória histórica sempre esteve presente, mas nunca esteve disponível. Quando o sujeito a percebe, ele a constrói como real (no inconsciente) e a simboliza, o que faz mudar toda a história imaginária.

Mas não devemos confundir a realidade com o conceito de real: o conceito de real põe em jogo o conceito de verdade, já que há uma parte da história do sujeito que falta e há uma parte que é um engano.

Vivemos sempre no risco do equívoco. Por isso que Lacan diz que a psicanálise trabalha com o desocultamento e revelação pela via do discurso: “de uma mentira verídica, tira-se a verdade”, diz ele – e a verdade surge pela antecipação da certeza. A partir daí o sujeito está implicado em relação ao seu desejo.

O passado simbolizado, embora tenha uma forma imaginária, fecha uma significação. É assim que a realidade psíquica é uma realidade temporal, que se articula entre o real, o imaginário e o simbólico: pela via do discurso. E o discurso, sabemos, é definido no “só-depois” da fala articulada. É só quando termino uma frase que se pode saber o que eu quero dizer, inserindo a dimensão do tempo na constituição do sujeito.

 

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Silvia Marina de Melo Paiva

Silvia Marina de Melo Paiva

Psicóloga , psicanalista e analista institucional. Com experiência em atendimento clínico, supervisão e transmissão da psicanálise. Formação em psicossomática psicanalítica e especificidades da clínica da drogadependência. Membro do corpo docente do Curso de Formação em Psicanálise do Centro de Estudos Psicanalíticos e colaboradora em outros institutos de formação.

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